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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A palavra ao Bispo do Porto

João-Afonso Machado, 20.01.11

A «conversa», hoje publicada no JN, entre o Bispo do Porto e o dirigente da Intersindical, Carvalho da Silva, encheu-me as medidas. Como membro da Igreja Católica, desvanecidamente orgulhoso do saber e da sensibilidade de D. Manuel Clemente. Que conheço, apenas, de parte da sua vasta obra publicada, numa perspectiva - digamos assim - de teologia aplicada. Ao caso português, obviamente.

Sua Ex.cia Rev.ª usou de palavras duras. Disse ser necessário "reagir à agiotagem"; dissertou sobre o consumismo - explicou-o como a infelicidade da pessoa humana quando "empenha" o ordenado em "gastos de duvidosa necessidade".

Foi o toque de partida para a reflexão acerca da "solidariedade colectiva", envolvendo a responsabilização da sociedade contra as ameaças do individualismo. E campeou pela ciência económica, pelo Ensino, pelo imperativo da criatividade. No à-vontade de um homem com os pés no mundo terreno, sabedor da caminhada que nos leva ao outro, o da Eternidade.

O Senhor Bispo não se intrometeu no quotidiano politico-partidário, o que não seria de esperar de Carvalho da Silva. Mas, manifestamente, ambos respeitaram os campos em que se movem.

E, usando de linguagem para todos, D. Manuel Clemente foi buscar polémicas antigas. Históricas. Portanto, do Presente e do Futuro. Somos um Povo de ficar ou de embarcar?

Magnífico!

Tanto quanto as invectivas ao sector mais culto dos nossos: o apelo a que nos saibamos integrar. Interpreto eu: por Portugal. Por terras de Santa Maria.

 

 

Bom apetite!

João-Afonso Machado, 20.01.11

Nesse tempo, as lojinhas de souvenirs não tinham ainda chegado à Ribeira. Nem a escuridão nocturna a deixara já. Mas era na hora do jantar que os universitários rumavam aquelas paragens, aos bandos. Muitos milénios antes dos turistas, como se vê.

Sobretudo porque as tascas eram baratas e os comeres de encher até tocar com o dedo. Os beberes também escorriam com facilidade e, quando não, o festim descambava em cenas menos curiais com os de lá, com agremiações rivais, fosse com quem fosse.

Mas o périplo das casas de pasto era garantido. O bacalhau frito, os carapauzinhos, as febras, o arroz de pato... E os escritos, datados e assinados nas paredes, ao lado das mesas, em verso ou prosa - e, com o andar das horas e das canecas, umas lágrimas de saudade vertidas por ela, pela ausente.

Agora, com a Ribeira restaurada, rejuvenescida, multivisitada, os restaurantes sucederam às ditas tascas, mantendo, filialmente, os apelidos em boa ordem. É o caso do Filha da Mãe Preta.

Fica no Cais, perto do Postigo do Carvão. E nasceu, justamente, nos idos em que as embarcações dos carvoeiros atracavam ali, a descarregar combustivel para as lareiras e os fogões tripeiros. Um deles (dos carvoeiros), encostado ao balcão, esquecido de lavar as mãos, terá enfarruscado a cara da taberneira. E, rindo da façanha:

- Pareces uma filha da mãe preta!

O nome, submisso, ficou. Da taberna até ao restaurante, duas gerações depois.