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Da estação da Trindade partiam os comboios das linhas do Porto à Póvoa de Varzim e a Guimarães. Ainda no tempo das máquinas a carvão e das carruagens de 3ª classe, sempre oportunas nas nossas contínuas derrapagens orçamentais. Mas eram uma delícia aquelas viagens no Verão, através de campos e campos de milho, até Vila do Conde. No varandim, quando as tábuas dos assentos já magoavam, tais os solavancos, e com direito a muita fuligem e a muita ensaboadela na roupa e na cabeça.
Por essa altura, era o pratinho dos lisboetas: então, lá no Porto, já há metro? E riam, riam, até à vez seguinte, quando repetiam a pergunta. Sempre a mesma pergunta. O tripeiro embatucava e tentava uma defesa pouco consistente, à base dos trolleys inexistentes na capital.
Veio, enfim, o metro para o Porto. E a Trindade passou a ser o seu centro nevrálgico. Durante dois ou três anos, uma máquina descomunal, tecnologia não nossa, andou esgravatando, perfurando o granito portuense, até alcançar, completamente exausta, o Estádio do Dragão. A Micas, como ficou conhecida cá no burgo. E a Micas, realizado o seu objectivo, já não teve forças para voltar para casa. Era sucata, e como sucata ficou, soterrada, esquecida, a criar enigmas aos arqueólogos do futuro.
Mas para o lado oposto, tratou-se, básicamente, de aproveitar o traçado daquela antiga linha. E o metro do Porto rápidamente se expandiu até Matosinhos, Maia, Póvoa, Gaia... Com todas as facilidades e vantagens calculáveis, desde logo a de viajar a céu aberto.
É por aí que agora pegam os lisboetas: então o vosso metro não é subterrâneo? - inquirem irónicamente.
Pois quase não é. Graças a Deus! Que graça tem andarmos na escuridão dos túneis, sujeitarmo-nos a avarias lá dentro? E ante tal interrogação, ficamos sem entender esta estranha afinidade entre alfacinhas e toupeiras.