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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Está quase

João-Afonso Machado, 07.10.10

 

Estas questões graves e inadiáveis do Centenário obrigaram-nos, sem dúvida, a gestos do mais elevado sentido patriótico. A época começou, para nós, mais tarde este ano. Ou melhor: a inauguração ocorrerá precisamente no sábado, espera-se que com muitos foguetes, muito estrondo.

E, já agora, com algum rendimento e alguma benevolência de S. Pedro - vai chover, dizem as más-linguas.

Veremos no que dá a peregrinação para o Sul. Se se mantiver a tradição, umas duzias de perdizes e uma ou outra lebre, ali na Beira Baixa. Num grupo de dez comparsas.

E depois é a almoçarada fatal. A prolongar-se até à hora do jantar. Invariavelmente discute-se qual a melhor linha de auxiliares caninos: os bracos, os epagneul, os pointer, os waimaraner... Eu voto no perdigueiro nacional. Porque o que é nacional é bom.

 

E parece que são bem pagos!

João-Afonso Machado, 07.10.10

É uma espécie já antiga. Secular. No tempo dos nossos avós, o humor lusitano apelidava-os carinhosamente de formiguinhas brancas. Mas guardando sempre as devidas distâncias, até porque, ninguém ignora, se o bicho dá na madeira vem a casa abaixo. Assim como num filme de terror, em que um grupo de zombies surge de repente e começa a abocanhar famílias inteiras.

Era esse o seu modo de vida: brutalizar quem fosse ordenado ser brutalizado. Uma profissão, ao que dizem, compensadora. Instrumento de trabalho: o bastão, não sendo necessário utilizar argumentos mais persuasivos. Porque as instruções eram sempre claras: a imagem e os ditâmes do chefe não se discutem.

Tantas fizeram, lograram produzir um sentimento de repugnância generalizado. Nojo puro. Até ao dia em que nos juraram que a espécie tinha sido enjaulada. Ou empacotada, expedida. Houve mesmo enormes festejos à conta dessa - digamos assim - migração.

Parece, contudo, regressaram recentemente. Iguaizinhos a antigamente e instalados, com todo o conforto, na capital do Império. Ave César!, claro... Engravatados, sempre despescoçados, de poucas falas. Inexpressivos, quando não possuidos por demolidores assomos de cólera. Cabeçudos, lustrosos, qual bolas de bilhar e confrangedoramente estúpidos. Como Darwin nunca suporia. Ao ponto de confundirem uma máscara de carnaval com o seu próprio facies.

- Uh, uh, uh, dá-ma cá!,

gesticulavam eles, anteontem, perante cidadãos atónitos nas ruas de Lisboa.

O que para aí não será, em Fevereiro ou Março próximos...

 

 

 

Faltava esta...

João-Afonso Machado, 07.10.10

Vieram de Braga e fizeram Guimarães estremecer. Por toda a cidade, à frente de centenas e centenas de participantes, vinham os bombos e tambores. Rufando galhardamente, chamando o povo. Vê-se que na idade fresca desta rapaziada, existe já essa força empolgante - a força do ideal de que os braços faziam eco pelas ruas da cidade. Vieram apenas por serem fieis à Monarquia. Logo, sem cachet. E em breve voltaremos a encontrá-los, talvez num 1º de Dezembro qualquer.

 

Guimarães, 5 de Outubro de 2010

João-Afonso Machado, 05.10.10

Chegaram já as primeiras notícias sobre a homenagem e e o preito de lealdade hoje prestado a S.A.R. o Senhor D. Duarte III, O Duque de Bragança e Chefe da Casa Real Portuguesa. Adiantam-se agora mais alguns pormenores. Guimarães, berço da nacionalidade, recebeu cerca de quatro milhares de portugueses vindos de todos os cantos do País. Após a cerimónia que decorreu no Paço dos Duques, o Senhor D. Duarte e a Senhora D. Isabel desfilaram à frente de uma massa compacta de gente pela ruas da cidade histórica.

As gentes da terra associaram-se a este desfile, aumentando o caudal de manifestantes ou vindo cumprimentar a Família Real.

Enquanto tal, um outro acto, carregado de simbolismo pontuava este 5 de Outubro, em Guimarães: no Largo da Colegiada, um grupo de sindicalistas celebrava as exéquias do Governo da República.

 

 

Manifesto contra o aparato

João-Afonso Machado, 04.10.10

Já não o vejo há uns tempos. Mas sei que anda por perto. Nunca se afastam muito, vão e vêm. São as nosas panteras de quintal, postas atrás de qualquer arbusto, à espreita de um pardalito, um rato distraído. Por vezes de noite, graças aos seus farois de nevoeiro - as tardes ensolaradas nasceram para o suave ripanço, barriga ao céu, a cauda meneando displicentemente.

Não são baptizados, por regra. "Olha o gato!", "anda cá, gato!". Conhecem logo quem fala, pelo tom de voz, pela atenção de que já antes foram alvo, e não esqueceram. Há aquele coçar atrás das orelhas, a mão deslizando pelo seu dorso luzídio. Se começam a ronronar, não despegam da gente. Aliás, nada lhes dá mais bem-estar, no inverno, do que o nosso sofá, as unhas entretidas nas nossas pobres camisolas. Quando, afinal, ai de quem tentar pegá-los ao colo! O silêncio e a sua independência caracterizam-nos. Dir-se-ia que pedem muito e dão pouco. Talvez. Ainda assim são parte integrante do quotidiano. Muitos não gostarão de gatos, mas poucos os dispensam.

E, depois, o eterno cofiar da sua bigodaça! O seu monarquismo, aliás. Pudera! - felinos, parentes do Rei da Selva!

 

D. Duarte recebido na Câmara de Celorico

João-Afonso Machado, 03.10.10

Organizado pelo PPM/Braga (representado por Manuel Beninger) e pelas Reais Associações de Braga (José Sá Meneses) e de Trás-os-Montes e Alto Douro (Francisco Pavão), decorreu hoje uma homenagem ao Senhor D. Duarte, Duqe de Bragança.

Esteve também presente, na mesa de honra, Don Camilo, Marquês de Baamonde, vindo da Galiza, em nome da sua amizade pessoal para com o Duque de Bragança, A cerimónia foi presidida por Joaquim Mota e Silva, Presidente da Câmara Municipal de Celorico de Basto, que não deixou de classificar o Ideal Monárquico como uma «causa nobre» e defensora dos interesses de Portugal. Até porque, frisou, em 100 anos o regime vigente jamais foi capaz de realizar «a igualdade e a fraternidade».

Disse ainda Mota e Silva que as câmaras municipais podem dar um grande contributo ao Parlamento - «ou este anda da perna, ou a perna dá um pontapé na República», alvitrou.

Há, pois, que enaltecer a coragem do edil. E fazer votos para que a ética republicana não caia em cima da sua carreira política. É que percebeu-se que os celoricenses gostam de Mota e Silva.

 

São mais do que os chineses

João-Afonso Machado, 02.10.10

Estão por toda a parte. Nos jornais, em placards às costas de homenzinhos que se passeiam nas ruas, em prospectos distribuidos aos transeuntes. E, cada vez mais, sobre a entrada de lojas onde, ainda há pouco, se comerciava honestamente roupa, livros, etc.

Naquele jeito desastrado de Vasco Santana, ou nos maneirismos de António Silva, o tema era sempre bem apanhado e divertido. O preguiçoso, o boémio, o burguesinho aflito que corria com a sua cebola e respectiva corrente à loja de penhores. Pró desenrasca... Mas, desta feita, não é de fitas a preto-branco que se trata. É de dramas autênticos e vividos entre nós e ao nosso lado. Os dramas de tantas famílias que se vêem obrigadas a desfazer-se dos seus bens mais valiosos para proverem ao sustento de pais e filhos, dos desempregos e dos estudos.

Pôr o anel ou o fio de ouro no prego. Um gesto novamente muito em voga. Neste moderníssimo Portugal do século XXI. O século I da República.

Lá por fora, entre muros do mundo global? Assim também rejuvenescido tão antigo costume?

Connosco a coisa promete. Até porque os portugueses se preparam para pagar mais impostos, receber menos salário e suportar preços em ascenção nos supermercados.

E quiçá não estará aí mais uma especialização a desenvolver no âmbito das Novas Oportunidades: a de prestamista. Com os portugueses a venderem e comprarem, reciprocamente, os adereços herdados dos avós ou oferecidos pelos padrinhos, ninguém dirá mais não haver circulação de bens. Ou que a economia nacional estagnou...

 

O metro do Porto

João-Afonso Machado, 02.10.10

Da estação da Trindade partiam os comboios das linhas do Porto à Póvoa de Varzim e a Guimarães. Ainda no tempo das máquinas a carvão e das carruagens de 3ª classe, sempre oportunas nas nossas contínuas derrapagens orçamentais. Mas eram uma delícia aquelas viagens no Verão, através de campos e campos de milho, até Vila do Conde. No varandim, quando as tábuas dos assentos já magoavam, tais os solavancos, e com direito a muita fuligem e a muita ensaboadela na roupa e na cabeça.

Por essa altura, era o pratinho dos lisboetas: então, lá no Porto, já há metro? E riam, riam, até à vez seguinte, quando repetiam a pergunta. Sempre a mesma pergunta. O tripeiro embatucava e tentava uma defesa pouco consistente, à base dos trolleys inexistentes na capital.

Veio, enfim, o metro para o Porto. E a Trindade passou a ser o seu centro nevrálgico. Durante dois ou três anos, uma máquina descomunal, tecnologia não nossa, andou esgravatando, perfurando o granito portuense, até alcançar, completamente exausta, o Estádio do Dragão. A Micas, como ficou conhecida cá no burgo. E a Micas, realizado o seu objectivo, já não teve forças para voltar para casa. Era sucata, e como sucata ficou, soterrada, esquecida, a criar enigmas aos arqueólogos do futuro.

Mas para o lado oposto, tratou-se, básicamente, de aproveitar o traçado daquela antiga linha. E o metro do Porto rápidamente se expandiu até Matosinhos, Maia, Póvoa, Gaia... Com todas as facilidades e vantagens calculáveis, desde logo a de viajar a céu aberto.

É por aí que agora pegam os lisboetas: então o vosso metro não é subterrâneo? - inquirem irónicamente.

Pois quase não é. Graças a Deus! Que graça tem andarmos na escuridão dos túneis, sujeitarmo-nos a avarias lá dentro? E ante tal interrogação, ficamos sem entender esta estranha afinidade entre alfacinhas e toupeiras.

 

Rio abaixo...

João-Afonso Machado, 01.10.10

Podia ser uma amazónia qualquer e uma ave aquática em perigo, cercada por piranhas. Mas não. Apenas um cardume de tainhas e um pato doméstico, gozando os sabores de uma boca de esgoto, no Douro, não muito longe da foz.

Justamente, o ponto mais deprimente do passeio principiado lá atrás, na Ribeira. Somos chegados aos históricos estaleiros do Ouro. Onde as embarcações já não são construídas nem reparadas, e apenas um escasso grupo de carolas mantém as suas lanchas e nelas lança as redes no mar.

Impera o desarrumo e a sujidade. Faces estranhas, agoirentas, a convidar estuguemos o passo. Não há que enganar: aquele, mais velhote, vive enfunado na tasca, a mulher ao lado é uma regateira do mais fino quilate, o rapazelho passou a madrugada a escrever obscenidades nas paredes - acordou agora e prepara-se para uma voltinha até à Sé, à sua dose diária. Tudo são olheiras, expressões viciosas, ausência de sentimentos.

E sucata e lixo. A ribeira de Lordelo sobe, de repente, à luz do dia, ela que vinha encanada nem sei de onde. Recolhendo sempre os dejectos da cidade, ali escrupulosamente depositados no rio. E a volúpia das tainhas, a sua atracção de sempre pela porcaria. Os pescadores da zona, idosos e reformados, por norma, quase que as afugentam à paulada. E como o robalo escasseia, vão-se contentando com as enguias. Ao menos é peixe de fundo, ninguêm vê o que come...

Não sei porque comecei a manhã com imagens tão negras. Mas logo a seguir - que alívio! - vem a Cantareira (onde nasceu o Chico Fininho...), depois o Passeio Alegre... O Douro recuperará a sua beleza, o dia enche-se de gente sadia, a pesca é outra, o sol reapareceu... E só pela madrugada a maré baixará, pondo o lodaçal, em toda a sua nojeira, outra vez à vista. Rejubilará a tainha, enquanto os seres normais dormem descansadamente.

 

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