Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Champions

João-Afonso Machado, 26.10.10

O Manchester United veio jogar com o Palmense, em renhida disputa na Liga Milionária. É o empolgante momento em que, se não for golo, a bola irá à trave da propriedade horizontal que envolve o pelado. Intervalo, então. Só para a ir buscar ao outro lado da vedação.

A assistência esgota a lotação do estadio. Apenas há lugares, ainda, nos rosáceos camarotes avarandados, mas a crise não se compadece com o preço de tanto conforto. Os adeptos ficam-se pela bancada central, ou pela geral, quando não acompanham o prélio pela televisão. Exactamente como eu.

Foi desporto o dia inteiro. De manhãzinha os putos. Pela hora do almoço, os juvenis. Finalmente, os graúdos, ombreando com os diabos vermelhos. O resultado? Leiam A Bola, está lá, na primeira página.

Tudo isto envolve dias e dias de planeamento e trabalho. A vigilante do complexo desportivo deixou, por instantes, de pendurar a roupa a secar e veio com o balde de cal assinalar os limites do campo e das áreas. Os técnicos de som esmeraram-se na instalação e Quim Barreiros, Ágata, Emanuel, Ruth Marlene, sei lá quantos mais, invadiram a vizinhança toda, até à sacristia da igreja, um quarteirão adiante. Na cozinha foi um inaudito aviar de febras e, pelas 13 horas tmg, apelou-se a um reforço urgente de cervejas no bar.

O Palmense nasceu em 1910. Que pena! Ditasse o acaso outra data e o seu equipamento não seria o inefável verde-rubro. Enfim, nem tudo pode correr bem. Melhor é o seu palmarés, a sua vontade de prosseguir, as suas multiplas actividades. O desporto cede, por vezes, o lugar às artes e ali se ensaiam as marchas populares de Lisboa. Com direito a acompanhamento, cá de cima do camarote.

- Então Cláudia, ginga-me essas ancas...

E a Claúdia, não fora uma certa secura de peito, uma bela moça, já veterana nisto dos Santos Populares, a Cláudia rilha a lingua entre os dentes e esmera-se. A não deixar os anos passar.

- Anda lá Claúdia, que essa ganga tão justa no rabo também não ajuda...

O principal troféu do Palmense: nas suas camadas jovens despontou para o futebol o actual treinador da Selecção lusa, o Mister Paulo Bento.

 

O Alentejo genuíno

João-Afonso Machado, 24.10.10

O Alentejo é grande demais para ser escrito. Não, talvez, o das localidades, compactas e já dadas à Estatística, ao resultado eleitoral. É o outro Alentejo, o que começa depois do alcatrão e percorre os estradões de terra batida. Ao longo de quilómetros e quilómetros de planície arável, de olivais e azinhais, entre os espectros dos sobreiros, hirtos e sós, num horizonte imenso de mil acastanhados diferentes.

E quando o estradão chega ao fim... são os eucaliptos, o pinhal, um mundo por desbravar. Cabeço após cabeço, um dia inteiro entre o mato, a flora sem dono nem cultivador, os socalcos e as valas. Quem lá chega, a esse Alentejo inóspito, onde o sino da aldeia não se ouve e a aldeia não se vislumbra? Feito de pedra solta, cascalhenta, armadilhada debaixo da vegetação, e sem água, seco, interminávelmente seco.

Não é o Alentejo parvenu das revistas côr-de-rosa, do jipe e do monte enfeitado a preceito pelo decorador da moda. É o que nós calcorreamos durante horas e horas com a gente de lá. A fazer-nos rogar pragas, a cada trambolhão ou escorregadela. E a rejubilar ante cada perdiz abatida, trazida à mão pelo parceiro quadrúpede.

Das oito da manhã até às quatro da tarde... Os alentejanos acabaram reconhecendo que os nortenhos são de pernas bem adestradas, depois da maratona que foi ontem. Transbordante de Alentejo selvagem e rematada por uma feijoada de se lhe tirar o chapéu. Porque depois do tojo e dos cardos, ficam sempre para a história os dois traços defenidores dos nossos anfitreões - o asseio das casas, a hospitalidade dos seus donos.

 

Quando às sextas se comia peixe

João-Afonso Machado, 23.10.10

«Era, para as peixeiras, o seu palco preferido de actuação. A Olívia, a Júlia e outras de menor quilate. Velhas, centenárias, necessáriamente viúvas, exibindo bigodeiras portentosas. Apareciam duas, três vezes por semana. Acordávamos - eu e os meus irmãos - com o seu tropear à porta. Roupão enfiado, desciamos como balas para não perder o espectáculo. A Avó chegava, entretanto, e sentava-se no canapé da entrada. "Então mulher, que traz você hoje?". Da canastra, já pousada no chão, levantava-se uma cama inteira de trapos e logo se descobria o linguado, a pedir fritada, a boca aberta de um belo pargo, o capatão feíssimo, o robalo, majestosamente prateado, rodelas de congro e, a um canto, qualquer salmonete envergonhado. Tudo fresquinho, regurgitado agora do mar, "vivinho, um regalo, pela minha rica saúde". "E o cherne ali, quanto custa?". "Oh, minha senhora, se o deixasse por menos de cinco escudos, estava a roubar aos meus filhos. Mas olhe para isto, ainda respira!". E esgaçava-lhe a guelra, como que a insuflar-lhe vida. "Veja minha senhora, que finura para os seus netinhos, não arranja igual na Póvoa". Mas a Avó não se deixava convencer. "É muito pequeno, meio enjoado. Nem por dois escudos". Neste ponto, o cherne levava uma punhalada que o esventrava, e vinha para muito perto do nariz da Avó. A plateia vibrava e aplaudia. "Enjoado, minha senhora? Com esta carne rijinha? É pequeno?, - estão aqui dois quilos de peixe digno de um rei, minha senhora!". E, de um outro golpe, vinham mais umas tripas cá para fora. "Por ser para a senhora, que a mais ninguém lhe fazia esse preço, quatro escudos. Ai o que os meus filhos me vão contar!". "Não quero, mulher, já disse, hoje não fico com peixe!". E a Avó fazia menção de se levantar. "Três escudos!... Três escudos e a minha desgraça. Valha-me Jesus e a Sua Santa Mãe!". E desatava numa correria, o peixe de barriga aberta numa mão, a faca, ameaçadora, na outra, só parando na cozinha. O drama estava no seu auge. A Avó ia-lhe no encalço, protestando. E, na cauda do desfile, nós, os netos, num largo troar de palmas. "Três escudos, minha senhora, e se não gostar deste cherne, pela alma do meu falecido que lhe devolvo o dinheiro". E indiferente a tudo e a todos, ali mesmo o escamava e limpava, deixando-o apto para o tempero e cozimento».

 

(«Em Vila do Conde descendo a Av. Bento de Freitas, ao longo de algumas gerações», in O Tripeiro, Ano XII, nº 8, Agosto 1993, pág. 242).

 

Faça o favor de chegar, Sr. FMI

João-Afonso Machado, 23.10.10

Há locais do País, os mais extraordinários, onde vamos conhecendo a realidade política. Essa vigarista, vendedora da banha-da-cobra. Imaginem Cuba-a-Nossa, imaginem um grupo de monárquicos, atentos e informados, e acreditem - se quiserem - no seguinte. Evidentemente estamos abertos a apostas, desde que clandestinas, longe do alcance da Administração Fiscal. Já agora, ganhamos só nós...

Há semanas - meses? - vimos assistido à telenovela O PSD e o OE do PS. O mais conseguido título de sempre... E certo é que os socialistas congeminaram tirar o tapete ao denodado Coelho, deixando-o chumbar o Orçamento e depositando-lhe, pelas vias constitucionais adequadas, o menino no colo.

Mas depois houve uma inflexão. Calma ai! - exclamaram os mais ponderados. E naqueles «almoços de trabalho» - a mais inconcebível ocorrência de sempre: como se fosse possivel almoçar e trabalhar, ao mesmo tempo - num desses repastos, a coisa foi planeada e posta em marcha.

Na mais ardilosa mise-en-scène, PS e PSD mantiveram a bulha de palavras. Enquanto que, derribados ao peso da responsabilidade e do patriotismo, apelavam a Eduardo Catroga - mais um honorável senador - entabulasse negociações para tentar debelar este temível momento histórico.

E presente, própriamente dito:

Catroga aparece nos noticiários da TV, informando sobre a dificuldade do trato. É falso! Tudo está já firmado. O OE passa... e PS e PSD, em uníssono, assinam o telegrama que reclama a presença do FMI, logo após. Sempre serão os dois maiores partidos portugueses a conjugar esforços para enfrentar a indignação popular.

 

 

Misericórdia...

João-Afonso Machado, 21.10.10

Os números, básicamente, são estes: 400 Misericórdias disseminadas pelo País, gerindo 19 hospitais e diversas clínicas; garantindo o emprego de mais de 100 mil trabalhadores; e beneficiando, com os seus serviços, uma realidade social que excede as 500 mil almas.

Estes dados sáo a evidência de uma primeira realidade: o riquissimo património da União das Misericórdias Portuguesas (UMP). O seu apetitosíssimo património. Decorrentemente, por este nosso Portugal fora, não será de estranhar o empenho e o entusiasmo com que, cidade a cidade, vila a vila, a provedoria das Misericórdias é disputada. Entre o Sr. Presidente da Câmara e o Sr. Provedor, lá na terra, nunca se sabe a quem distinguir com o pioneiro erguer de chapéu...

Até agora, e por decreto da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), sancionado pelo Vaticano, as Misericórdias sujeitavam-se à autoridade diocesana. Parece erguer-se, porém, um nóvel movimento libertário. Vá lá saber-se porquê...

(Ou estarão para vir à luz do dia tremendas negociatas envolvendo o CEP, os bispos, o clero sinistramente suspeito e despudorado?).

Como sempre, quem mais perde é quem mais necessita. Porque - facto notável - hoje ainda, neste usualmente chamado mundo cão, subsistem os benfeitores. Gente de coração grande, que dispõe mortis causa dos seus bens a favor das Misericórdias. Com o intuito de auxiliar, beneficiar os pobres, os carenciados. Só isso, exceptuando o acesso mais curto para a celestial felicidade, que assim buscam. Mas esses benfeitores ameaçam agora rasgar os testamentos já lavrados, desconfiando de quem serão os destinatários dos seus haveres: os desgraçados e os indigentes, assistidos pelas Misericórdias, ou a Igreja que as tutela.

Ora, admito até que à minha aldeia as notícias chegam no mais pasmacento atraso. Certo é jamais por lá se ouvirem os ecos de algum ceguinho bradando - «aqui d'El-Rei!, a Santa Madre Igrega palmou-me a caixa das esmolas!».

Inclino-me, por isso, para outra ordem de interesses espicaçando a polémica. A modos de algo parecido com o que vai no sector imobiliário e no futebol... Qualquer dia, começa a cruzada da laicização da UMP.

 

 

Se os sinos rebatem

João-Afonso Machado, 20.10.10

Não há dia, lendo os jornais, eu não deite o olho à página omnipresente - a do correio dos leitores. A essa miscelânea de desabafos, revoltas, incomprensões, dogmas de treinadores de bancada. Onde tantos espelham o que julgam ser e saber, inconformados com a desdita da incognitude, nesta República sempre a afirmar todos são iguais.

Li hoje carta de alguem, reclamando a vinda do FMI. Escrevia o autor, seria o fim do mamanço. O País seguiria, finalmente, regras firmes, impolutas. E, depois, fosse como fosse...

Essa a realidade mais real. Talvez os portugueses não estejam, tout court, preocupados com uma vida menos desafogada. Talvez ainda mantenhamos aquele espírito que levou Napoleão a gabar as nossas tropas - capazes de se alimentarem de porcaria. Talvez, apenas, o sentimento predominante seja o inconfomismo. A noção - ou a visão - de verdades simples: de um lado, a massa imensa, lutando pela sobrevivência; do outro, as mordomias e os famigerados fatos Armani. Fica aí a diferença. E o mote para a revolução. Ou para a ressurreição...

Nada disto seria novidade, todavia, não se desse o caso óbvio da saturação popular. Eu já assisti ao fenómeno único dos sinos a tocar a rebate. Uma multidão enfurecida é algo que a Grécia, ou mesmo a França, já vão conhecendo. Por cá, nem tanto. Mas a incultura dos governantes não galga tão longe. Sei-os preocupados, temerosos. Fazem bem. É legítimo que cuidem da sua pele. E por tabela, já agora, dêem um jeitinho a Portugal.

 

Outro modo de conforto

João-Afonso Machado, 20.10.10

Alguém se lembrou, há décadas, de moldar o crescimento do carvalho então recém-nascido. Ginasticou-o, proporcionou-lhe braços hercúleos. Isto em Vila Nova de Cerveira, junto à mesinha de pedra, descendo os socalcos até lá baixo, onde desliza o Minho rio.

O sítio mágico dos fins-de-tarde. Com uma garrafa de alvarinho muito fresca, gelada, e a lampreia fumada de Melgaço. E o incontornável grupo de amigos, raízes tão profundas quanto as da árvore que nos dá sombra. Onde se fala de tudo, até dos partidos e dos políticos.

São horas gravadas na vida de cada um. Contava-se, há pouco, um barqueiro topara um vulto negro, enublado, levado na corrente, direito ao seu carocho:

- Que raio é isto?!

Era a Crise. Essa avantesma. Com um golpe hábil do leme, desviou e viu-a prosseguir, ao largo da Boega, da Ilha dos Amores, até se esfumar para lá da Ìnsua.

-O mar te leve para longe e te engula...

E embrenhou-se na sua lide, redes às águas, o salmão ainda dá, por ali, um ar da sua graça.

Sentados nos braços do carvalho, ou no verde circundante, vamos deixando o sol esmorecer. Se nos falta a chaise-longue? Pois falta. Mas sobra-nos outro tipo de conforto. Somos gente habituada à vida remediada, não exigimos muito e, graças a Deus, o pouco que temos é sólido. Não nos assusta apertar o cinto, pela razão simples de que temos cinto para apertar. Por isso a Crise entrou mar adentro e desapareceu, nem da Ínsua a vislumbravam já.

Não quer dizer não vivamos angustiados. Somos portugueses. Sempre solidários com Portugal, e com os muitissimos portugueses indefesos e vítimas da irresponsabilidade daqueles a quem confiaram a governação do nosso País. Esses que não se conseguirão esquivar à Crise.

 

Será já o Sagrado Viático?

João-Afonso Machado, 19.10.10

Portugal está ao rubro-verde. Entre umas tantas trincheiras, dentro das quais espingardeiam os orgãos de soberania. Uns contra os outros.

Sai um obús do lado do Poder Judicial: «Estamos a pagar a factura de ter incomodado, nas investigações e no trabalho jurisdicional que fazemos, os "boys"do PS». Ainda essa tarde, a artilharia governamental bombardeara exímiamente os magistrados com demolidoras penalizações fiscais. É a denominada guerra orçamental, em que a tributação serve como expedição retaliadora contra a incursão Face Oculta e quejandas.

Assim explica, no terreno, o cap. António Martins, meritíssimo responsável pelos operacionais da Associação Sindical dos Juizes Portugueses. Enquanto o Judicial delineia novas arremetidas contra o Executivo.

Também na retaguarda se assiste a notória destemperança das tropas. Os milicianos da Associação dos Funcionários de Investigação Criminal admitem posicionar-se entre os fautores da greve geral de Novembro. O corpo conta com cerca de 1250 investigadores, hoje comparecendo ao serviço em traje lutuoso. Lembrando vagamente os camisas negras, falanges de outrora.

Os discursos apocalípticos são sempre maçadores. Por isso, encurtando razões, ocorre-me, somente, faz por agora cem anos conheceu a luz do mundo a ridente Repúblicazinha. Nascida, precisamente, com a incumbência de cuidar pelo nosso bem-estar, o que, não há dúvida, a ocupou durante toda a sua longa vida.

Oiço na rua, uns passos, uma campainha aflita. Será o Senhor Prior? Será o Sagrado Viático e o seu acompanhamento? Estarão a chegar os derradeiros sacramentos a ministrar à moribunda? Descubro-me à passagem do andor. Requiescat in pace...

 

Como na Patuleia

João-Afonso Machado, 18.10.10

Às armas, portugueses! Nobre Povo, Nação valente! A nossa independência, outros a tentaram já roubar. Debalde. Somos os mais felinos da Europa, essa a que agora chamam União Europeia. Não há rato que nos escape, na dita Zona Euro, e jamais deixámos algum ministro nos acertasse com os cascos. Invoquemos os nossos antepassados maria-da-fontinos quando, dormindo ao borralho, surgiu o Governo de quatro patas lançadas aos nossos celeiros. A lambuzar-se, todo herbívoro, na palha onde se acolhia a nossa rataria. Assanhados, levantámos o País e corremos o Governo, os Cabrais e outros que tais, a abóboras e mais porcarias incomestíveis para gente asseada.

Recordo bem. Recuámos, demos-lhes terreno. O ministro, na sua avidez financeira, galopando atrás, a abrir muito as narinas prontas a soprar o tributo. Empolgado, o IVA, o IRS, as portagens, tudo lhe toldava o intervalo entre as orelhas longas - e logo pregadas no arame farpado que venceramos num salto ágil... Folgámos, finalmente, descansámos da corrida, enquanto o ministro desfarpeava a gravata e o fatinho castanho, os seus dois respeitáveis abanicos dolorosamente ensaguentados. Enganara-se, julgara tudo uma via verde, esbarrou-se na sua precipitação.

Coitado do ministro. Conheçe lá ele a nossa raça - gatos de sete vidas, catorze fôlegos, pardos, brancos e negros... - sempre a dar ao Governo prado e verdura, distância. Não somos vegerarianos e as auto-estradas e pontes são nossas, oferta dos nossos parentes ricos, siameses e persas.

 

Já poucos sobram

João-Afonso Machado, 18.10.10

Há que reconhecê-lo: os de Lisboa levam a palma. Têm outra alegria, são canários a trinar, só mesmo as suas asas para voar até ao Castelo, nessas calçadas onde nenhuns outros fariam ninho. Nas rotas do lendário 28. E ainda se prestam a uma boleia, se a nossa bolsa anda magra, que fome não passará a dos gaiatos?...

Também até à Estrela, arfando, sempre atentos ao piso, que, ali, as escorregadelas ainda acabam ao colo de algum deputado da República... Para Belém não sei, falaram-me em máquinas novas, silenciosas - que piada tem um eléctrico não ronceiro? - quiçá traiçoeiras, hoje em dia é preciso cuidado com essas maltas de Belém... Surgindo de sopetão, a vetarem-nos a liberdade, com as bocas cheias de nada, ele é só tabus ou poesia requentada.

Na capital nortenha, os percursos são outros. É a Marginal, aquela humidade que nos reveste os ossos contra todos os males, é a Rua de Santo António (31 de Janeiro, chamam-lhe alguns, poucos), a Batalha lá no topo. E os Clérigos, para oxigenar o pulmão.

 Mas falta-lhes a vivacidade. Com quilómetros pela frente e uma Rua da Restauração, com um cenário soberbo para oferecer ao utentes, os electricos do Porto acastanham, enfadonhos, quase passam despercebidos entre a multidão. Salva-os a sua eterna campaínha de biciclete, a tocar infrene sempre que algum automóvel jaz esquecido em cima dos trilhos.

Dir-se-ia que os nortenhos partem eternamente para a faina. Atestados de canas-de-pesca que vão depositando ao longo do Douro, um reformado aqui, outro mais além. Sempre no acender de uma cigarrada, depois do mata-bicho, tão frescas já andam as manhãs. Pesadões, taciturnos, não fossem tão poucos, seriam apenas outro bando de pardais.

É, os de Lisboa têm outra beleza. Espreitam a Graça e tocam uma guitarrada. Descem ao Terreiro do Paço com um cesto de cravos. Os amarelos pintaram-se para uma vida mais descontraída. Ao contrário dos de cá e da neblina que amadrinhou a comunidade britânica do Porto.

O importante é, porém, que, uns e outros, não se deixem extinguir por algum desnorteado vento de modernidade.