Os ponteiros da vida
É como aquelas albergarias decrépitas, pomposamente ainda ostentando a designação de hoteis. Megalomanias... O Magic Circo não seria mais do que um grupo familiar de saltimbancos. Gente simpática, indiferente aos ponteiros da vida, à incansibilidade das horas e dos dias, uns sucedendo aos outros, sem parança. Vagueavam por aí, de terreola em terreola, proporcionando agradáveis momentos à miudagem, nessas eras em que a miudagem não pensava ainda nas playstations. E não pensando (indiferente aos ponteiros da vida...) na vinda próxima das playstations...
De modo que a fuga do público trouxe consigo a falência do Magic Circo. Desactivado, sobrou uma reforma de 175 euros para o casal de artistas - os filhos migraram, a assegurar o futuro - , a ajuda e a solidariedade dos habitantes de Vila Boa do Bispo, no Marco de Canavezes, e ... três ursos e um burro, o Pavarotti. Comprimidos numas jaulitas quaisquer, em espaço cedido pela Junta de Freguesia, e sem dinheiro que custeie a sua alimentação.
Mas a Odete e o Reinaldo não arredam pé. Ele, vítima recente de um AVC, com sequelas evidentes na expressão facial, era o tratador e domador das feras. Ela, outrora trapezista de nomeada, era mais recentemente - e mais prudentemente - o palhaço da companhia. Porque os ponteiros da vida, afinal, nunca param. E somos o que somos, enquanto somos, por muito que as madames acastanhem ou aloirem as cabeleiras, e escondam as brancas.
O importante do episódio: os ursos e o Pavarotti precisam de comer e de um dono que os respeite. Os parques zoológicos do Norte já foram contactados, mas não se manifestaram. E os ponteiros da vida continuam apontando, inexoravelmente - segundo a segundo, dolorosamente, os males de quem sofre.
