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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Políticas económicas e de sobrevivência

João-Afonso Machado, 27.10.10

Creio que já não é o tempo do nosso proverbial sentido de humor. A coisa é séria. E inconclusiva. Só aturei, nas notícias da noite, a discursata do Secretário-geral do PSD, Miguel Relvas. Deixei-me ir ouvindo... Aquela longa explicação dos orgãos do Partido, que não há meio de eu decorar, as sucessivas tentativas de aproximação às propostas do Orçamento delineado pelo PS. O fracasso da negociação, obviamente causado pela inflexibilidade dos antagonistas...

Somente, gostei de um pormenor: o PSD iria divulgar, para apreciação dos eleitores, o teor dessas mesmas propostas. Digo eu: quem abre o jogo, não tem razões para temer... Além de que, ao que consta, a laranjada estivesse disposta para transigir nos aumentos do IVA e quanto aos benefícios fiscais restringidos.

(Um-zero, a favor da laranja-mecânica).

Depois apareceu o ex-ministro Catroga. Está cansado, a idade não perdoa. E invocou um facto: as negociações debruçar-se-iam sobre o plano orçamental na generalidade. O mais ficaria para a discussão parlamentar, na especialidade.

(É verdade! - dois-zero).

A seguir, coube o verbo ao PS. Isto é, a retórica negativa daqueloutra. Que era preciso cumprir as metas orçamentais; mais o drama da Sra. Merckel; além, fatalmente, do despachar de responsabilidades para o vizinho oposicionista.

(Aqui mantenho o dois-zero, embora fazendo vista grossa sobre um penalti roubado aos vice-campeões).

É claro, logo de seguida, a notícia de que os mercados financeiros já estavam a cuspir em cima de Portugal...

 

Em suma: dá para entender que o PS já foge para o bunker. E que os sofredores somos nós, os mexilhões. Pessoal, toca a tratar da horta. Cá para o Norte arrendam-se terrenos a preços módicos.

 

A fisgada de Cavaco

João-Afonso Machado, 27.10.10

Soube-se ontem aquilo que já todos sabiam. Ou talvez não: nestas andanças políticas há sempre umas subtilezas, e o facto de o cidadão Aníbal Cavaco Silva ser, garantidamente, um candidato à Presidência da República não significa, de per si, que o Presidente Cavaco Silva se candidate à recondução no cargo. As coisas são como são e, afinal, em nem tudo o que parece é.

Mas sentia-se a necessidade da novidade. Do sacudir da monotonia. Cavaco Silva, pensou, deitou contas à vida e deu com a calculadora em Espanha. Onde a fotografia de Juan Carlos não se passeia, colossal, nos cartazes de parede, a ajudar à facturação das gráficas. Numa dessas cimeiras ibéricas, o Presidente da República Portuguesa confidenciou a Sua Magestade, a propósito da crise mundial, o meio que alcançara de remar exemplarmente contra a maré.

- É preciso poupar. Eu vou dar uma lição aos meus adversários...

- ???

- Sim, contando sempre com a discrição de V. M., transmito-lhe já a minha genial ideia...

- !!!

(E porque ainda era Maio, foi-se à terceira fatia de doce da Teixeira. Vorazmente).

- A coisa está entabuzada, por ora, porque quero que os outros se espalhem. É deixá-los afixar os outdoors e depois cair-lhes em cima. Não há cá despesas com papel. Os tempos são de contenção... Grande fisgada, hem?

- ...

- Então V. M. não comenta?

- Lo sabes tu...

- V. M. põe reservas?

- Mira... Em Espanha não se usam cartazes publicitários do seu Chefe de Estado. Os espanhois preferiram gravar a sua efígie nas moedas de um euro. É menos colorido, mas não desbota com o sol e a chuva.

O Presidente Cavaco ia replicar, mas sentiu uma forte cotovelada, vinda do lado, e ouviu-se uma voz feminina, bem portuguesa:

- Porque no te callas?

 

Do "Diário de Viana" de hoje

João-Afonso Machado, 27.10.10

«Celebram-se hoje as bodas matrimoniais do nosso Amigo e denodado compatriota, o simpático comerciante José Socas Pinto, com a gentil e prendada menina Maria da Foz de Lima, das mais antigas famílias radicadas em Viana do Castelo.

A cerimónia, inicialmente pensada realizar-se na intimidade dos seus, acabará por redundar num festivo e generalizado acontecimento, a encher de alegria parentes, amigos, vizinhos e não só.

Foi a surpresa preparada pelo padrinho dos noivos, o Ex.mo Sr. Hugo Chavez, conhecido capitalista venezuelano, para o felicíssimo José Socas um autêntico pai, desde o tempo em que este exercia o mister de caixeiro-viajante.

É sabido como o Ex.mo Sr. Chavez sempre se prontificou a ajudar os jovens e empenhados profissionais em início de carreira. Daí a sua triunfal entrada em Viana do Castelo, buzinando à frente da extensíssima fila de convidados que encheram a A28 de miríades de pedacinhos de tecido branco nas antenas dos seus automóveis. Conforme, aliás, é tradição e costume entre as pessoas da nossa melhor sociedade. E o Ex.mo Sr. Chavez, no seu desvelo de padrinho e protector, anunciou já que reservou para o nosso inestimável José Socas uma excelente situação laboral na Venezuela. Nada mais do que um poço de petróleo, só para ele, agora que se antevê para breve a sua partida para o lado de lá do Atlântico. De torna-viagem?

Garantido que fica o ridente futuro do noivo, finalizamos expressando à menina Maria da Foz de Lima, uma vida cheia de paz, muita paz. Aqui em Viana, claro».