O Alentejo genuíno
O Alentejo é grande demais para ser escrito. Não, talvez, o das localidades, compactas e já dadas à Estatística, ao resultado eleitoral. É o outro Alentejo, o que começa depois do alcatrão e percorre os estradões de terra batida. Ao longo de quilómetros e quilómetros de planície arável, de olivais e azinhais, entre os espectros dos sobreiros, hirtos e sós, num horizonte imenso de mil acastanhados diferentes.
E quando o estradão chega ao fim... são os eucaliptos, o pinhal, um mundo por desbravar. Cabeço após cabeço, um dia inteiro entre o mato, a flora sem dono nem cultivador, os socalcos e as valas. Quem lá chega, a esse Alentejo inóspito, onde o sino da aldeia não se ouve e a aldeia não se vislumbra? Feito de pedra solta, cascalhenta, armadilhada debaixo da vegetação, e sem água, seco, interminávelmente seco.
Não é o Alentejo parvenu das revistas côr-de-rosa, do jipe e do monte enfeitado a preceito pelo decorador da moda. É o que nós calcorreamos durante horas e horas com a gente de lá. A fazer-nos rogar pragas, a cada trambolhão ou escorregadela. E a rejubilar ante cada perdiz abatida, trazida à mão pelo parceiro quadrúpede.
Das oito da manhã até às quatro da tarde... Os alentejanos acabaram reconhecendo que os nortenhos são de pernas bem adestradas, depois da maratona que foi ontem. Transbordante de Alentejo selvagem e rematada por uma feijoada de se lhe tirar o chapéu. Porque depois do tojo e dos cardos, ficam sempre para a história os dois traços defenidores dos nossos anfitreões - o asseio das casas, a hospitalidade dos seus donos.
