Quando às sextas se comia peixe
«Era, para as peixeiras, o seu palco preferido de actuação. A Olívia, a Júlia e outras de menor quilate. Velhas, centenárias, necessáriamente viúvas, exibindo bigodeiras portentosas. Apareciam duas, três vezes por semana. Acordávamos - eu e os meus irmãos - com o seu tropear à porta. Roupão enfiado, desciamos como balas para não perder o espectáculo. A Avó chegava, entretanto, e sentava-se no canapé da entrada. "Então mulher, que traz você hoje?". Da canastra, já pousada no chão, levantava-se uma cama inteira de trapos e logo se descobria o linguado, a pedir fritada, a boca aberta de um belo pargo, o capatão feíssimo, o robalo, majestosamente prateado, rodelas de congro e, a um canto, qualquer salmonete envergonhado. Tudo fresquinho, regurgitado agora do mar, "vivinho, um regalo, pela minha rica saúde". "E o cherne ali, quanto custa?". "Oh, minha senhora, se o deixasse por menos de cinco escudos, estava a roubar aos meus filhos. Mas olhe para isto, ainda respira!". E esgaçava-lhe a guelra, como que a insuflar-lhe vida. "Veja minha senhora, que finura para os seus netinhos, não arranja igual na Póvoa". Mas a Avó não se deixava convencer. "É muito pequeno, meio enjoado. Nem por dois escudos". Neste ponto, o cherne levava uma punhalada que o esventrava, e vinha para muito perto do nariz da Avó. A plateia vibrava e aplaudia. "Enjoado, minha senhora? Com esta carne rijinha? É pequeno?, - estão aqui dois quilos de peixe digno de um rei, minha senhora!". E, de um outro golpe, vinham mais umas tripas cá para fora. "Por ser para a senhora, que a mais ninguém lhe fazia esse preço, quatro escudos. Ai o que os meus filhos me vão contar!". "Não quero, mulher, já disse, hoje não fico com peixe!". E a Avó fazia menção de se levantar. "Três escudos!... Três escudos e a minha desgraça. Valha-me Jesus e a Sua Santa Mãe!". E desatava numa correria, o peixe de barriga aberta numa mão, a faca, ameaçadora, na outra, só parando na cozinha. O drama estava no seu auge. A Avó ia-lhe no encalço, protestando. E, na cauda do desfile, nós, os netos, num largo troar de palmas. "Três escudos, minha senhora, e se não gostar deste cherne, pela alma do meu falecido que lhe devolvo o dinheiro". E indiferente a tudo e a todos, ali mesmo o escamava e limpava, deixando-o apto para o tempero e cozimento».
(«Em Vila do Conde descendo a Av. Bento de Freitas, ao longo de algumas gerações», in O Tripeiro, Ano XII, nº 8, Agosto 1993, pág. 242).
