Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O coelho pascal

João-Afonso Machado, 11.10.10

O Governo continua, afincada e profícuamente, batalhando pela rejeição do Orçamento de Estado. O Governo não é inconsciente e não esquece o devir nacional, nem a sua própria pele. A solução, ponderaram os governantes, está em sairem já - mas nobremente. E sossegadamente. Que é como quem diz, sem dívidas e dilacerados por queixumes. Crucificados. Porque arriar a bandeira, sem mais, seria pouco digno, o revés da façanha outubrina de Machado dos Santos. É necessária uma despedida chorosa nesta Ericeira constitucional.

Logo o plano surgiu devidamente gizado. Um orçamento intolerável, uma Oposição intolerante e tola. Um chumbo, uma bala governamenticida. Acertando em cheio no coração do OE. Deixando aos autores do atentado a responsabilidade de assumirem as rédeas da coisa pública.

Trocando por miúdos: aproveitar o embalo. Passos Coelho? - dás a alma pelos direitos do povo ante a Administração Fiscal? Pois toma lá a batata. Está mais do que quente - ferve. Aguenta aí a revolta, as greves, o diabo!

E assim o Governo embarca na demissão. Na sua Ericeira, mas sem querer rumar o Norte da reconquista. Seguindo apenas, aparentemente, a rota constitucional: a nomeação dum sucessor de iniciativa presidencial, a ausência de mareantes independentes, a capitania entregue ao capitão da principal nau opositora.

Sempre à espera do seu afundamento. E da queda em desgraça do Almirante Cavaco, tragado também pelas águas revoltas..

Com a Primavera, alcançado o oceano dito Pacífico, o Partido Socialista ressurgirá. Mesmo que os piratas do FMI já tenham tomado conta da nossa Tortuga. Não interessa - a memória do povo é curta. É mesmo possivel que o Barba-Sócrates, surja outra vez à frente da esquadra, como se nada fosse. A distribuir ovos de Páscoa por essas maltas que (na Tortuga) sempre viverão de expedientes.

 

Toponímia justiceira

João-Afonso Machado, 11.10.10

Era no tempo em que os estudos liceais seriam, certamente, uma das primeiras despesas a suprimir, sobrevindo uma crise como essas em que Potugal é exímio: as de falta do vil metal nas bolsas dos portugueses.

Em meados do século ido, o Estado - o Novo, republicano - entendia para além da 4ª classe morarem o luxo e a ociosidade. Salvo para alguns, é claro. E, por isso, se não proíbia, também não ajudava. Como em tantos lugares do País, a vida dos estudantes de Guimarães, sobretudo os das freguesias mais periféricas, era complicada.

A história da Snrª. Aninhas decorre entre esses invernos de bater o dente e as inclementes estiagens no Interior. Nas décadas de 50, 60 e 70, compadecida dos liceais menos abonados, a quem diáriamente esperava com um prato de sopa quente, um refresco. Com palavras de ânimo e de ternura. Para os mais encalacrados, com uma discreta corridinha e uma vela acesa na Colegiada de N. S. da Oliveira.

Residia por ali, nas imediações da Rua de Santa Maria. Onde os vimaraneneses quiseram perpetuar a sua memória, baptizando essa Travessa com o nome da Snrª. Aninhas, a "madrinha dos estudantes".

Morreu há muito, quase centenária, mais velha do que a República, por quem não nutria particular estima. Alíás, há quem jure tê-la visto em Guimarães, no passado dia 5, se não de corpo, pelo menos de alma inteira.

E é neste Portugal que se vive bem. No Portugal onde as relações entre as pessoas não são abafadas pelos horários, pela multidão, pelo ruído do trânsito automóvel.

(Os poucos a saltar do liceu para a universidade, como conseguiriam sobreviver sem a Snrª. Aninhas? Cercados por sebentas, noitadas, serenatas e o mais que a madrinha nem imaginava? Sim, heroicidade a nossa, por havermos, ao menos, concluido a licenciatura!).