Manifesto contra o aparato
Já não o vejo há uns tempos. Mas sei que anda por perto. Nunca se afastam muito, vão e vêm. São as nosas panteras de quintal, postas atrás de qualquer arbusto, à espreita de um pardalito, um rato distraído. Por vezes de noite, graças aos seus farois de nevoeiro - as tardes ensolaradas nasceram para o suave ripanço, barriga ao céu, a cauda meneando displicentemente.
Não são baptizados, por regra. "Olha o gato!", "anda cá, gato!". Conhecem logo quem fala, pelo tom de voz, pela atenção de que já antes foram alvo, e não esqueceram. Há aquele coçar atrás das orelhas, a mão deslizando pelo seu dorso luzídio. Se começam a ronronar, não despegam da gente. Aliás, nada lhes dá mais bem-estar, no inverno, do que o nosso sofá, as unhas entretidas nas nossas pobres camisolas. Quando, afinal, ai de quem tentar pegá-los ao colo! O silêncio e a sua independência caracterizam-nos. Dir-se-ia que pedem muito e dão pouco. Talvez. Ainda assim são parte integrante do quotidiano. Muitos não gostarão de gatos, mas poucos os dispensam.
E, depois, o eterno cofiar da sua bigodaça! O seu monarquismo, aliás. Pudera! - felinos, parentes do Rei da Selva!
