Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

São mais do que os chineses

João-Afonso Machado, 02.10.10

Estão por toda a parte. Nos jornais, em placards às costas de homenzinhos que se passeiam nas ruas, em prospectos distribuidos aos transeuntes. E, cada vez mais, sobre a entrada de lojas onde, ainda há pouco, se comerciava honestamente roupa, livros, etc.

Naquele jeito desastrado de Vasco Santana, ou nos maneirismos de António Silva, o tema era sempre bem apanhado e divertido. O preguiçoso, o boémio, o burguesinho aflito que corria com a sua cebola e respectiva corrente à loja de penhores. Pró desenrasca... Mas, desta feita, não é de fitas a preto-branco que se trata. É de dramas autênticos e vividos entre nós e ao nosso lado. Os dramas de tantas famílias que se vêem obrigadas a desfazer-se dos seus bens mais valiosos para proverem ao sustento de pais e filhos, dos desempregos e dos estudos.

Pôr o anel ou o fio de ouro no prego. Um gesto novamente muito em voga. Neste moderníssimo Portugal do século XXI. O século I da República.

Lá por fora, entre muros do mundo global? Assim também rejuvenescido tão antigo costume?

Connosco a coisa promete. Até porque os portugueses se preparam para pagar mais impostos, receber menos salário e suportar preços em ascenção nos supermercados.

E quiçá não estará aí mais uma especialização a desenvolver no âmbito das Novas Oportunidades: a de prestamista. Com os portugueses a venderem e comprarem, reciprocamente, os adereços herdados dos avós ou oferecidos pelos padrinhos, ninguém dirá mais não haver circulação de bens. Ou que a economia nacional estagnou...

 

O metro do Porto

João-Afonso Machado, 02.10.10

Da estação da Trindade partiam os comboios das linhas do Porto à Póvoa de Varzim e a Guimarães. Ainda no tempo das máquinas a carvão e das carruagens de 3ª classe, sempre oportunas nas nossas contínuas derrapagens orçamentais. Mas eram uma delícia aquelas viagens no Verão, através de campos e campos de milho, até Vila do Conde. No varandim, quando as tábuas dos assentos já magoavam, tais os solavancos, e com direito a muita fuligem e a muita ensaboadela na roupa e na cabeça.

Por essa altura, era o pratinho dos lisboetas: então, lá no Porto, já há metro? E riam, riam, até à vez seguinte, quando repetiam a pergunta. Sempre a mesma pergunta. O tripeiro embatucava e tentava uma defesa pouco consistente, à base dos trolleys inexistentes na capital.

Veio, enfim, o metro para o Porto. E a Trindade passou a ser o seu centro nevrálgico. Durante dois ou três anos, uma máquina descomunal, tecnologia não nossa, andou esgravatando, perfurando o granito portuense, até alcançar, completamente exausta, o Estádio do Dragão. A Micas, como ficou conhecida cá no burgo. E a Micas, realizado o seu objectivo, já não teve forças para voltar para casa. Era sucata, e como sucata ficou, soterrada, esquecida, a criar enigmas aos arqueólogos do futuro.

Mas para o lado oposto, tratou-se, básicamente, de aproveitar o traçado daquela antiga linha. E o metro do Porto rápidamente se expandiu até Matosinhos, Maia, Póvoa, Gaia... Com todas as facilidades e vantagens calculáveis, desde logo a de viajar a céu aberto.

É por aí que agora pegam os lisboetas: então o vosso metro não é subterrâneo? - inquirem irónicamente.

Pois quase não é. Graças a Deus! Que graça tem andarmos na escuridão dos túneis, sujeitarmo-nos a avarias lá dentro? E ante tal interrogação, ficamos sem entender esta estranha afinidade entre alfacinhas e toupeiras.