Tema fora de conversa
Esta é a história que não quero escrever, na parte ínfima em que me apetece um desabafo. Não faz sentido deixarmos de ser, se sempre fomos. Só isso.
A gente assim aprendeu, assim vai ensinando. Tudo, até a apanhar cobras vivas. Naquela tarde ensolarada, há tantos anos, a bicha acelerava como podia na berma da estrada. Eles eram muito miúdos. Parei o carro, saí e apertei-lhe a cabeça contra a terra, enquanto deitava a mão à sua cauda. E trouxe-a connosco. A Tia, quase octogenária, encolheu-se um pouco no assento, meio enojada, mas sem comentários. Seguimos para casa.
Expliquei-lhes que o silvar das cobras não tem dentes nem solta perdigotos. Deixei-a cansar para poderem segurá-la também. Havia festa de aniversário, os convidados citadinos embasbacaram, foi um sucesso. Contei-lhes mais: a cobra, devolvida à liberdade, fora depois pasto de uma récua de javalis...
Contei-lhes tanta coisa! Eram os meus filhos. Mas cresceram e optaram pela margem de lá, fora do mundo do meu sangue. De onde ninguém me tira, porque é onde eu sei estar. Os outros dialectos, vou-os compreendendo sem dificuldades de maior - mas só falo o meu. Pelo menos, enquanto eles também só falarem o deles.
