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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Torre de Dona Chama

João-Afonso Machado, 01.10.20

Vamos em pleno planalto da Terra Quente, com a bússola a apontar o norte. Almas, muito poucas naquelas bandas; rebanhos, alguns... O destino é Torre de Dona Chama, um lugar quase perdido e esquecido. Hoje freguesia do concelho de Mirandela, em outros tempos que o Constitucionalismo levou cabeça de município orgulhoso, decerto mais populoso, firme na justiça de que o seu pelourinho era o ceptro.

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E, ao lado dele, a velha Berroa. Uma "porca de Murça" menos abonada, digo eu, em solos de fertilidade inferior; uma ursa, dizem outros. Não sei: seguramente um quadrúpede e mais uma achega para a colecção de lendas que vicejam na região. Dona Chama, Dona Chamoa, terá sido a senhora terratenente, ali com autoridade antes mesmo de Portugal nascer...

E Torre de Dona Chama parece dormir o sono da Branca de Neve. É domingo, não se vê vivalma.

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O centro da vila (uma cortesia governamental de 1989) reparte-se entre as utilidades (sendo evidente o monopolismo comercial em Torre de Dona Chama...) e o abandono, paredes meias, - um abandono que se dá ao luxo de deixar apodrecer uma vidraria-drogaria-etc engalanada à entrada por lindíssima parreira, monumento ímpar,

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e, por fim, alguém, um ancião, comprovando que ainda estamos todos vivos. Apenas o casario não.

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Porque a debandada é tão real quanto cruel. Torre de D. Chama soma hoje pouco mais de mil habitantes. Claro - os efeitos de tal escassez ecoam nos arruamentos sem voz

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exceptuando as das galinhas da vila, acomodadas nos rés-o-chão das residencias, aparentemente melómanas, ou então percursoras de revolucionárias formas decorativas.

Ir a Torre de Dona Chama não é regressar ao Passado. Antes será avançar no mais sinistro Futuro. Depois de um Presente onde paredes seiscentistas se conspurcam com persianas nas suas janelinhas encaixilhadas

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e a frontaria da antiga casa enobrece a sua ruína com um brasão sabe-se lá de quem, possivelmente de alguma guerreada partilha, ou de um mundo já há muitos anos citadino e desmemoriado.

 

No Dia Mundial do Alzheimer

João-Afonso Machado, 30.09.20

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Muito me apraz aqui invocar o Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer 2020. Conforme ele foi vivido entre nós, cidadãos famalicenses.

Falou mais alto, foi de rasgos, a Associação Casa da Memória Viva de V. N. de Famalicão, com quem me orgulho de colaborar; mediante duas iniciativas que levou a cabo: a primeira, no passado dia 21, uma sessão no auditório da União das Freguesias de V. N. de Famalicão e Calendário tendo por mote a apresentação do programa Estou Aqui Adultos. No fundo, um meio organizado para a ajuda de doentes afectados nas suas faculdades mentais por qualquer tipo de demência, e desprovido de teias burocráticas, a todos acessível e muito bem explicado em “pagelas” – panfletos – nas quais a nossa Polícia de Segurança Pública teve um papel maior.

Assim a movimentação seguinte, de sábado, 26 de Setembro, decorreu em parceria com a PSP. Tratou-se de distribuir à população – nessa manhã agitada de mercado – nas ruas do centro da cidade, bolsas porta-máscaras protectoras do Covid. Gratuitamente, é claro, como produto de uma parceria com as empresas Batist Medical, FVD, NAC Contabilidades E NPrint. Em cada abordagem, a entrega do equipamento e a prestação das necessárias informações para o utilizar.

A ACMV dispôs, como referi, do auxílio das forças de segurança pública. Neste quadro será sempre de realçar a extraordinária proximidade, sem dúvida vinda de trás, dos elementos policiais – in casu o Chefe Silva e o Agente Braga – e dos muitos cidadãos contactados, que todos se pareciam conhecer da mais sã convivência no dia-a-dia. Parceiros de sempre… Valeu a simpatia, o diálogo franco com quem passava – gente habituada, decerto, a políticos, burlões, vendilhões e outros pedinchas – para, às primeiras palavras, os destinatários se interessassem sem reservas acerca do que lhes era oferecido ruas abaixo, e conversassem e brincassem ou falassem dos seus receios.

O lema dessa manhã foi oportunamente apelidado Famalicidade é… pensar inclusivo e agir solidário. Há certos neologismos que caem mesmo bem! Famalicidade!... - a justaposição da urbe e da qualidade que todos queremos para ela. Do Largo Tinoco de Sousa até à Praça D. Maria II, muito foi comentado e distribuído. O concelho vive dias difíceis de pandemia, não como não deixar o nosso contributo. Mesmo porque, agora e sempre, saber tratar de nós é o caminho mais seguro para a protecção dos indefesos nossos familiares, vivendo lá em casa ou, até, em locais de apoio onde se resguardem.

Em suma, uma manhã de sábado assaz movimentada. E mais um passo que a ACMM deu, conforme os seus objectivos. Acreditem os famalicenses, mesmo bem ciente de quantas dificuldades se lhe atravessam ao caminho, a ACMM está cá para prestar a sua desinteressada ajuda. Digo-o com a independência de quem nela não detém qualquer representatividade ou poderes decisórios – sendo certo, abracei com os fundadores este projecto; e, acredito, com o empenho que vejo ser demonstrado, no devido tempo todos nos reuniremos em seu torno, como um inquestionável lugar de salvaguarda dos necessitados.

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas, in Opinião Pública de 30.SET.2020)

 

 

Romagem a um túmulo

João-Afonso Machado, 29.09.20

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Assim é a Eternidade dos mortos. Entre vidraças escaqueiradas e árvores seculares e o sobressalto do ruído a acordá-los. À passagem das Caldas de Moledo nunca conheci outra, e sempre fui ouvindo o choro dos de antigamente. Quando as suas termas estrelavam no céu dos possidentes e o Douro  os entretinha no vagar dos rabelos. Por então, ali à porta da Região vinhateira, D. Antónia Ferreira e o seu Marido davam o que podiam, queriam gente lá, investiam por bondade, algo que ficou nos mortos mas não na eternidade...

A estrada estreita. Os camiões TIR não sendo de cerimónias. O casario é quase só um amontoado de ruínas. Tábuas toscas e pregadas à pressa seguram antigas madeiras bem trabalhadas das portadas do hotel. Nas janelas, cada vidro ainda incólume é uma alma por enquanto em paz. Se alguém quiser saber dos enxofres do inferno que avance dentro essas paredes e esses três pisos, dos quatro do Apocalipse...

... a par da transparência do calor, no silêncio da cegueira, avistando o casal que atravessa a passadeira - o semáforo avermelhara para os automóveis - em pausada troca de palavras só audível para quem... for além da eternidade dos mortos e alcançar a da História.

O seu vestido negro roça e confunde-se no alcatroado da estrada. São desses mistérios o seu chapéu de plumas e a sombrinha. O cavalheiro, a quem dava o braço, de patilhas generosas com o melhor couro cabeludo, segue enchapelado e hirto. Espreita um relógio já sem ponteiros que foi buscar ao bolso do colete. Ei-los. Eis aí a Ferreirinha! Ao alcance apenas de quem não corra.

Seguimo-los com o olhar. Afundam-se nos anos de ouro dos velhos e imensos plátanos. Esverdece o semáforo e o TIR troa uma buzinão. D. Antónia, ainda a vejo amparada pelo Marido, parece desfalecer... E a brisa assobia um nico, entre as ramagens que cobrem este túmulo das Caldas de Moledo.

 

Vésperas

João-Afonso Machado, 26.09.20

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Nota bem, esse teu olhar tem hora marcada: nunca antes do cachimbo e do nosso serão. Nem antes nem depois. Tu não és o Nero dos Bichos do Torga, cinquenta e cinco anos de idade nos separam, ala que se faz tarde e as perdizes são sobretudo matinais. É, caro Egas, tens uma estirpe a cumprir -  a estirpe do avô Jardel e da avó Minês, e a do Paio, da Dona Mécia, da mãe Tareja. (A tua mãe, a cadela mais meiga que ao mundo veio, uma fera em terrenos de caça, a inveja dos caçadores em seu redor.)

Eu sei, os tempos vão maus e a idade deste teu pai já não ajuda. O Alentejo é distante, a caçada está em coisa pouca. Mas, meu Egas, a vida vai-se coxeando assim mesmo. Tapete quando tal, e monte se ele nos chama. Temos já programa? - Não!, não temos. Mas algo surgirá, disso estou certo.

Havemos de carregar a arma, assim tu sigas depois as minhas instruções: nariz fino e corpo dominado; boca de alface e espírito de entrega apontado à minha mão.

Oiço já o bater de asas delas, velhote. Este ano será dourado, Deus diz. Não há muitos mais pela frente - para mim, é claro; não para ti, criancinha de colo. Indo nós, anda-me com essa merda para a frente, não me envergonhes.

Nem queiras ficar órfão... Depois com quem conversarias em serões cachimbados? Mas se continuas a olhar-me com esses olhos, até a espingarda se me derrete nas mãos.

 

"Parabéns!"

João-Afonso Machado, 25.09.20

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Mais um ano minha linda

um mais, que a vida não finda

 

em corujas sentinelas

nas pedras frias sepulcrais.

 

Ri e canta, apaga as velas,

dá-me um beijo

e outra fatia do teu bolo,

 

dá-me o sabor, dá-me o desejo do teu amor

e um lugar onde saiba pô-lo e guardar.

Dá-me até o nome

por que o hei sempre chamar.

 

Água benta sobre os tuk-tuk's

João-Afonso Machado, 23.09.20

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À saída dos Jerónimos - e à vista de semelhante parque de viaturas... - a ideia chegou e instalou-se: tuk-tukar até Santa Apolónia. Em máquina pequena, a deixar cair uma lagrimazita de saudade dos tempos das Piaggios, as suas mudanças de mão, o travão de pedal como os das caminhetas... Assim atravessei a rua para negociarmos.

O preço foi rapida e justamente fixado. Saltámos lá para dentro, atrás do condutor o banco dos conduzidos, duas pessoas mais a bagagem, tudo a ajudar esquecer uma Lisboa que se queda mais triste quando a gravata se nos enrosca no pescoço, e o fato substitui o blusão ou as mangas arregaçadas.

Num ápice para trás ficaram a Belém dos pasteis e a Belém presidencial, à ilharga o comboio, e já raspávamos o Cais do Sodré, cá no fundo da Rua do Alecrim, o Chiado uma lembrança vaga no topo, adeus Lisboa, até um dia...

Aliás, a maré no Terreiro do Paço enchia ameaçadoramente de turistas. E de uma inusitada ondulação, o Tejo muito nervoso, invenctivando os passantes, a rogar-lhes pragas, a deixar no eco o ano sinistro de 1755. E quase a bater-me nos pés. - Oh! Tejo, aguenta aí, pá! Deixa-me, ao menos, apanhar o Alfa e alcançar Santarém, que eu de lá aviso a Protecção Civil: ela chega sempre a tempo... 

Por isto tudo, um simpático baptismo de tuk-tuk. Rápido a mais, como acontece com tudo o que é simpático. Muito dialogado e explicado, desde os segredos destas novas Piaggios até aos meandros dos transportes alternativos. E o arzinho fresco na cara, um ar de aventuras em mundos desconhecidos, um sonho breve de lonjuras a explorar.

(João Batarda é algarvio de berço, mas vive em Lisboa desde que regressou do Luxemburgo. No tempo bastante para alfacinhar por completo. Deixou-me o cartão do seu modo de vida - um operador de tuk-tuk's. Tem um aspecto feliz: passeia o santo dia todo, e leva os outros a passear. Está nele espelhada a diferença entre uma viagem de táxi e o percurso da cidade em tais triciclos, a mandar-lhe piropos se o vento a despenteia ou mesmo lhe levanta a saia...)

 

Quase flamingos

João-Afonso Machado, 20.09.20

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Não lhe cheguei, a esse céu de formas elegantes, esguias, carregado de psicadelismo esvoaçante. Novos e muitos quilómetros se seguirão, talvez até ao dia da jangada e do varapau nas águas mansas da lagoa. Provavelmente da lagoa de Óbidos.

Foi insistente a procura da imagem alada e cor de rosa. Ficámos a uns duzentos metros dela, separados pelo sapal e ensapatados, indevidamente calçados. Mas o bando de flamingos estava lá. A patrulha das garças reais também.

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E os patos, dezenas deles, boiando como brinquedos de corda a fazer quá-quá, os corvos marinhos, os galeirões... Toda uma cidade ribeirinha inacessível, por isso não condizente com a liberdade. Logo, não perfeita.

Avançaremos para a conquista dessa perfeição. Marchando talvez de galochas ou imitando as cobras, só de olhos à superfície, a caneta entalada nos dentes. Pirateando as intransponibilidades, criando, enfim, a bissectriz entre a estética da visão e as palavras que sabem explicar a vida.

 

"Pontos cardeais"

João-Afonso Machado, 17.09.20

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A sul o dia dorme à espera de amanhã

enquanto a poente a tarde vai quente

e festiva como se o hemisfério oposto.

 

A sul soam muitas horas de calma vã.

A poente é o mistério

do tempo sem tempo

entre as amoras de Agosto

e um adeus de desgosto,

 

eterna espera do Amanhã.

 

 

"Álvaro Marques - o edil"

João-Afonso Machado, 16.09.20

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Completaram-se agora 127 anos (o Tempo é, realmente, uma sanguessuga!), nascia em Famalicão Álvaro Folhadela Marques: foi a 4 de Setembro de 1893 e não demorou, pela falta prematura do seu Pai, a vida dos negócios da Família lhe fosse confiada e o obrigasse a assumir a gestão da Casa Folhadela & Cª.

 (Uma era tão tranquila – no fundo, tão recuada! – que ainda se vivia não aflitamente em mercancias de responsabilidade ilimitada – os compêndios jurídicos assim expliquem em detalhe o sentido desta afirmação…)

E esses os tempos de uma urbe famalicense ainda adolescente, a pedir vitaminação, forças para chegar a hoje e a amanhã. Quem lê os jornais de então, dá conta de um punhado de patrícios acima de tudo apostados em fazer crescer a terra e em musculá-la para que diante de ninguém baqueasse. Álvaro Marques era indiscutivelmente um deles. Talvez o maior.

Pelo menos, uma personalidade vincada, pragmática e decidida a fazer obra. Não se lhe conhecem outros compromissos políticos que não os com a sua gente. Teria a confiança da II República – no termo de muitas hesitações, isso é sabido, - depois de passar pela vereação municipal e alcançar – por nomeação governamental - o grau de Presidente da Câmara, em 1945. E nesse cargo se manteve, ininterruptamente, até à sua morte súbita, partida que pregou a familiares e conterrâneos em 30 de Outubro de 1957.

Mas esses 12 anos foram, na história da edilidade, a dúzia dourada das intensas novidades. Por tal forma que ainda agora a praça principal, diante dos Paços do Concelho, ostenta o seu nome. Sem que alguém o questione.

Vivia no alto da Rua Camilo Castelo Branco – lembro bem a sua casa – rodeado de jardins com portal para a Rua Direita. Tudo veio abaixo há décadas, ficaram fotografias e memórias, um pouco de saudade da nossa velha vila e uma correnteza de prédios a ocupar esse espaço. É claro, já Álvaro Marques debandara há muito para um destino melhor, tão certo quanto a meta que alvejava em cada uma das imensas vezes que apanhou o comboio e foi a Lisboa, à Administração Central, reclamar pressa nos melhoramentos planeados para Famalicão.

(Sim, de comboio, sem avião, sem Mercedes, sem chauffeur, nem à partida, nem à chegada. Sozinho, em qualquer hotelzinho.)

Chamava-se a pessoas assim – “bairristas”. Um termo extinto na nossa imprensa: um termo, aliás, agora, em plena “globalização”, algo mal conotado. Na altura, o sinónimo de alguém que prezava, sobretudo, os interesses e o desenvolvimento da sua terra. E que punha esses objectivos acima dos seus, pessoais. Neste andamento, Álvaro Marques impulsionou a construção da cadeia no Talvai, dos passeios da Rua Adriano Pinto Basto e da Avenida – hoje – 25 de Abril; dos acessos à escola primária e à sua cantina e da edificação de muitos estabelecimentos do ensino básico no concelho; do embelezamento da actual Praça D. Maria II; e do imprescindível estádio futebolístico…

Mas muito mais: surgem, por então, novas artérias viárias; o “edifício de rendas económicas” da Rua Eng. Fernando Ulrich, a Avenida Humberto Delgado dos nossos dias; e “Bairro” que foi, deixou, e voltou a ser “do Cardeal Cerejeira”…

A coroar o bolo, o Mercado Municipal, a servir até ao ano transacto, e agora em remodelação. Todavia, seja ela como for, o Mercado Municipal sempre permanecerá sempre, talvez funcionando em moldes diferentes, - o mercado de Álvaro Marques.

Durante o seu prolongado mandato ocorreram os terríveis incêndios nos velhos Paços do Concelho. É também nele que o arquitecto Januário Godinho apresenta o seu vencedor projecto para um novo e arrojado edifício camarário. Álvaro Marques, porém, já não assistiria à sua inauguração, em 1961…

Nas caminhetas, os mais novos ouvem ainda, dos mais idosos, agradecidas invocações deste nosso edil. É de justiça! De resto, não numa caminheta, mas num restaurante, ouvi há pouco, de um deputado lisboeta, que Famalicão é um dos chamados “municípios-modelo”. Ainda bem!

 

Da rúbrica Ouvi nas caminhetas in Opinião Pública de 16.SET.2020)

 

 

De comboio, da Régua ao Pocinho

João-Afonso Machado, 14.09.20

Um passeio absolutamente ao alcance, e tantos anos de desprezo... A Régua, em Setembro, no auge do cosmopolitismo, a pedir meças às cidades maiores. Uma vida cara, lá para as bandas, e um impressionante vaivém de gentes. A estação ferroviária, de súbito cheia de idiomas díspares, impaciente porque o comboio, bem à portuguesa, vinha atrasado. Íamos subir o Douro até onde pudesse ser.

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Não tardou a primeira barragem. Bagaúste. O rio hoje é isto: ora um lago, ora um fio de água onde por milagre os barcos-hoteis vão furando sem naufragar. E nós sempre pela margem, de olho esbugalhado ante paisagens imensas, para já povoadas, o mundo das quintas vinhateiras.

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São montes que se despenham das alturas, em socalcos agora trabalhados por máquinas, já sem os muretes de pedra e as escadinhas, vinhas modernas, decerto mais rentáveis.

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Adiante, não muito, o Pinhão. O coração do Douro, se a Régua é a sua capital administrativa. A vida dos povos da Região contada toda nos mais ilustrados e hábeis azulejos da estação. O comboio enche - assustadoramente - de passageiros. Está ali o mundo inteiro e, cada vez menos, a minha mobilidade para fotografar, conquanto a automotora se desloque com todas as janelas abertas. À moda antiga...

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A próxima assinalável paragem é no Tua. Vale dizer, junto à confluência deste rio com o Douro. Nova - e mui caudalosa - invasão de utentes... Pelo meio, antigas peças da ferrovia, um misto de exposição e apodrecimento, mas porquê?, não me ocorrem outras linhas em que tanto seja este descarado desperdício.

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Depois o Douro parece emagrecer apertado entre paredes de granito. Por tempo bastante - as vinhas somem-se, e levanta a voz um panorama calado de pedra, carrasqueiras e codeçais e estevas.

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Lugares de Adamastores fluviais onde duvido alguém tenha chegado. Ou sobrevivido... Mortes vindas do céu para as águas, ignotas e esquecidas.

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(Ladeando o drama, a automotora prossegue a sua marcha. Velozmente. E nós no mesmo ritmo, porque o Alto Douro não cabe todo aqui...)

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Mas há o tornar ao vinho. Já em terras de muito poucos conhecedores. Passamos a célebre quinta do Vesúvio da celebérrima Ferreirinha (D. Antónia Ferreira). Para trás ficaram os tremendos cachões e o fantasma de Forrester. Neste Douro mais selvagem, mandam muito, actualmente, - os britânicos do Oporto Wine.

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Afora eles, estranhos gostos se penduram nas margens ingratas do rio. Perco-me a pensar como e de quê - ou quanto... - se aguentarão naqueles galhos de vida.

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Enfim, o Pocinho. Daí para a frente, é o nada ferroviário, salvo a saudade de comboios da minha juventude, ainda a vapor, a linha do Sabor, os machos que montávamos e vinham carreiro abaixo, só por milagre não se - e nos - esborrachando debaixo das locomotivas. É Fozcoa e a proximidade de Espanha. Não é - um boteco sequer para nos dessedentarmos em dias assim, abafados, tragados pelas serranias, a pedir encarecidamente cerveja fresca, uma fatia de qualquer coisa, bons anfitreões... Uma lacuna triste no Douro Vinhateiro - Património da Humanidade!...

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Já no regresso, entardecia mais depressa que o andar do comboio. O cansaço instalara-se nas carruagens. Mas houve sempre um lugar no pódio para a Quinta das Carvalhas, no Pinhão, a cabeça da Real Companhia Velha.

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Conhecia-a, há mais de três décadas, no meu baptismo às perdizes no Douro. Trazido e recebido por gente para sempre no meu coração!

 

Na estação, esperando o Passado

João-Afonso Machado, 11.09.20

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Era um propósito já muito velho, sempre adiado, o de visitar o amigo em pleno coração transmontano desterrado, um antigo furriel da mesma fornada no Ultramar.

Fora uma época dura, dessas que deixam cicatrizes no corpo e a memória em chaga viva e apenas pela camaradagem salva da infecção fatal. 

Não tinha carro. Não tinha emprego. Aliás, não tinha grande asseio também. E ninguém tinha consigo. Ainda assim, depois de décadas, teve a sorte de uma boleia até à Régua. O ex-furriel, o tal antibiótico como só em Trás-os-Montes os há, e o medicara com o dito transporte arranjado por um conhecido vindo ao litoral em negócios de azeites, - esse velho camarada, afiançou-lhe fosse da Régua ao Pocinho, de comboio, e encontrá-lo-ia à sua espera na estação.

É para o que ele se prepara, por uma vez empenhadamente. Não negligenciou a barba, deixou o barbeiro lhe lavasse o resto de óleo cabeludo e foi ao armário buscar os seus sapatos pretos, muito cambados, as calças de vinco e uma camisa branca. Quem não tem emprego não faz contas aos dias, a mala rota e de muito chiar nas ferragens acolheu umas peçasitas de roupa, umas fotografias ainda dos idos militares e um chouriço bem embrulhado, de prenda para o anfitreão.

Estará agora na Régua, aguardando a automotora para o Pocinho. No curso de tantos anos, o que se lhe deparará pela frente?

(E eu, que o construi com a minha caneta, digo que o tempo de ontem produz os mesmos efeitos enigmáticos das fulgurantes tecnologias de hoje...)

 

"Minhotos arcoenses a salvar em Lisboa"

João-Afonso Machado, 09.09.20

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Quem se lembra do Tollan há de contar não menos de trinta anos. Muito rapidamente, - o Tollan era um porta-contentores britânico que, no Tejo, precisamente defronte ao Terreiro do Paço, colidiu em 1980 com um navio sueco. Virou-se ao contrário, o “bicho” era enorme, maior do que a maior baleia, e quatro tripulantes morreram no acidente. Ano após ano, de barriga para o ar, bizarreou a melhor fotografia da nossa Capital, sem que alguém soubesse tirá-lo dessa flutuação de cadáver. (E, muito provavelmente, as autoridades esperando alguma tempestade o levasse rio abaixo até às profundezas do oceano, contando não atropelasse, na travessia, qualquer cacilheiro ou outra embarcação…)

Em finais de 1983, com a sempre necessária ajuda germânica, o casco do Tollan foi finalmente removido. Criara, entretanto uma imensa geração anedotária: até em Vila do Conde a vanguardista arquitectura (Siza Vieira) do BPI, valeu ao edifício o epíteto de Tollan. Este é um exemplo, além do qual encontrei, recentemente, para as bandas de Alfama, um pequeno restaurante, o Tolan, de seu nome.

Eu não gosto de comer em casas complicadas.

Logo intui, não seria o caso do Tolan. Além do resto, uma efeméride, a nostalgia dos meus vinte anos… Assim determinei: almoçaria – almoçaríamos – nesse velho poiso. Umas excelentes pataniscas de bacalhau, adiantemos já. Com farinha, sim, mas com o gadídeo a dar-lhes corpo. (Vão saber o que é um “gadídeo”, espécie ictiológica com pera…) E com cebola quanto bastou e um senhor arroz a fazer-lhe companhia. Sem maçadores a palrar em redor. Alfama dormia a sesta. A invasão turística em trégua, rendendo preito ao meu bem-estar. Gosto de bons e diversos sabores, mesa sem salamaleques, preços que não me esganem o orçamento… Não preciso de restaurantes elitistas para saber estar como deve ser… E dou preferência aos de pinga não mais cara do que o prato, com pouca gente e pouco barulho, lugares simples mas acolhedores..

Somente a D. Glória, a patroa, sempre respeitosa e prestável, não deixava o sol iluminar-lhe o semblante. E havia nela uns restos de sotaque que não me enganaram. Já quase na sobremesa, sempre lhe fui perguntando – A senhora não é lisboeta, pois não?

Não, não era. Era – confirmando a minha ideia – minhota, dos Arcos de Valdevez. Iam lá quase quarenta anos… Abrira o restaurante com o marido, precocemente levado por um AVC, agora a crise, o negócio indo para o fundo, onde estavam os germânicos e os britânicos?... E as lágrimas a correrem-lhe nas faces…

- Oh! D. Glória, venha aqui! Fale connosco! Isso é nada! – A minha Amiga, estarrecida, multiplicava-se em ditos de encorajamento, algo que não vai muito comigo. Porque lendo (creio que o P. Varillon), soube perceber que o menosprezo do sofrimento é a pior ofensa que fazer se possa a um sofredor. Portanto, quando clamei, em voz alta, - D. Glória! – foi mesmo para a trazer à mesa e confirmar com ela, a vida é como o mais manhoso dos bodes.

Falámos muito, chegámos até a equacionar o seu regresso aos Arcos. De qualquer modo, futuros almoços ou jantares em Lisboa seriam prometidamente no Tolan, mesmo – ou sobretudo – com grupos maiores, gente em peso a encher-lhe a casa (e os meus desgraçados ouvidos…).

A D. Glória sentou-se connosco, desabafou, a minha Amiga foi mimoseada com um “tu” e com o tratamento de “amor”, “ó filha”, “minha flor”, and so on. Eu não, decerto por contenção imposta pela minha branca cabeleira, por qualquer atitude paternalista de que tivesse abusado…

Terminámos o almoço com uma excelente ginjinha, oferta da D. Glória. Não tarda regresso a Lisboa, e à sua porta não deixarei de bater. Os meus conterrâneos, indo à Capital, façam o mesmo. Por todas as razões imediatas e pelo nosso sangue minhoto!

Procurem a localização do Tolan no FB, que ele tem página nessa enciclopédia.

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas, in Opinião Pública de 09.SET.2020)

 

 

"Portrait"

João-Afonso Machado, 06.09.20

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Meu retrato do tempo deitado fora,

ferro cravado

em sangue já descolorido.

 

(Meigas feições, branco vestido

de jardins de outrora –

tudo foi embora.)

 

Mas o retrato guardo-o comigo,

em  dores de saudade mora

na realidade de tanto perdido

 

onde o sorriso é o abrigo,

lágrimas de quem não chora.

 

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 04.09.20

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O vento assobia pelos corredores das casas. Não há como evitar irmos na corrente de ar - irmos sorvidos para lá dos montes. Onde as paredes do mundo começam a amarelecer, numa actividade insana das formigas carregando e descarregando para o inverno. Já a cigarra esmorece na sua euforia. É Setembro, a vindima sem fim.

 

Memória vilacondense (avulsa)

João-Afonso Machado, 03.09.20

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Eram as célebres manhãs nevoentas de praia vazia e a Bento de Freitas uma orquestra de batentes das portas, tantas as peixeiras de canastra à cabeça. Seria, provavelmente, mais um dia de almoço à mesa e por isso surgiam elas, com peixe variado, acabadinho de chegar da Póvoa. Aquilo havia de ser compaixão do S. Pedro pelas peixeiras das Caxinas, o nevoeiro era o seu maior trunfo para fazerem pela vida. 

Os senhores - toda uma geração de que já só restam saudades - confrontados com a intempérie, vestiam a sua calça beije, o pull-over de marca, não raro o plastron e, sozinhos ou aos pares, tomavam o rumo da vila.

Atravessavam o jardim imenso, com o seu coreto, os muitos canteiros, e embrenhavam-se em território indígena: passavam o cinema, o Bom Doce e só paravam na outra esquina, no Café Bom Pastor.

Estabelecimento antigo, respeitável, sóbrio. Frente à entrada, o balcão enorme e as férreas mesas redondas de tampo transparente.

Vão lá quarenta nos!... Onde irá, também, o Sr. Bompastor, uma simpatia e um homem da maior utilidade, sempre prestável, aliás um entendido em televisores avariados?

Os senhores - gentlemen da cabeça aos pés - compravam o jornal, tomavam o seu café e produziam uma tranquila manhã de cavaqueira entre eles. Volta e meia, espreitando pelas enormes vidraças do Café Bom Pastor, sempre não esqueciam um eventual azular do céu, prás bandas da praia...

Senão, era mais um cigarro fumado sem restrições, a encher de patine as paredes e o tecto do Bom Pastor. Este assim amarelecia sossegadamente, bem conversado, o seu nome, em letras fundidas e expostas à salinidade do ar, curvando na frontaria a esquina toda. Como agora em nada se topam quaisquer semelhanças com esse velho Bom Pastor de resignadas manhãs e um ou outro rocambolesco episódio. Lembro o de um cavalheiro da vila, decerto confundido, dirigindo-se a um dos veraneantes a cumprimentá-lo efusivamente:

- Então como está???

E o da praia, engasgado no bolo da arroz, surpreendido e balbuciante:

- Estupefacto!

 

Grândola

João-Afonso Machado, 01.09.20

Há uma avenida quase sem princípio nem fim. Afinal, como se não estivessemos no Alentejo... Pensando melhor, um eterno bater de botas no asfalto, rude e militar, determinado: ouvem-se sons - Grândola Vila morena/Terra da fraternidade/O povo é quem mais ordena/ Dentro de ti ó cidade...

E esse ritmo assustador, a revolução em marcha, prossegue avenida fora. Será de temer o pior, andamos nos ecos da tomada da Bastilha, a "fraternidade" é um alçapão...

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A apresentação do filme aterroriza. A pelicula tranquiliza. O bater das botas esboroa-se. Grândola, afinal, é uma terra de bem receber os forasteiros. Em cada esquina um amigo... A começar pela terceira idade.

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A sombra, uma nesga de ar corrido. Uma tarde conversada. Para o Inverno, essa macaca, a Revolução! Até lá, amplas liberdades de cumprimentos a quem chega, muita simpatia dos indígenas. E a curiosidade, que é o chouriço dos anfitreões de pão aberto à espera.

Grândola transborda de gente receptiva!

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Entretém-se nos seus clubes, nos seus bailaricos. Lugares sagrados de conspirações de outrora. Santuários, digamos assim. É o mal de Grândola - impossível dissociá-la da política. E das cores garridas dessa política!

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Em algum desacerto com as coisas do Senhor, há Cultura. Há de haver muito mais, sem dúvida. No vazio das ruas vamos descobrindo actualidades, Grândola tem o ouvido apertado ao transistor, escuta o relato, é sua a primeira página desportiva

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e as notícias chegam frescas, aí temos a equipa sportinguista para a próxima época, além do óleo emérito de Varandas e de lances capitais futebolados do futuro. Grândola sonhadora, à sombra de uma azinheira/que já não sabia a idade

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Afinal, Grândola é a despedida. Para norte e para o sul. Para o almejado Algarve de uma simpática inglesa. Para Lisboa, destino dos que regressam de férias. A estação ferroviária sem vivalma, apenas uma voz monocórdica no altifalante, anunciando os próximos comboios.... Grândola? - dada agora a fantasmagorias???

 

Página gastronómica

João-Afonso Machado, 29.08.20

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Era uma pechincha e ele não resistiu. Sequer avaliou antecipadamente as invencíveis camadas de gordura que toldavam toda a cozinha. Sequer se lembrou, não sabia cozinhar. Era apenas a concretização do seu sonho gourmet, um restaurante nouvelle cuisine.

Confrontado com a realidade, o contrato já assinado, ainda assim não esmoreceu. Tratar-se-ia apenas de trazer à liça a sua conversada, mulher de armas e perseverante (ao ponto de não desistir de injectar juízo na cabeça do mariola...).

(Aliás, as mulheres são lutadoras natas. Não talvez com mais força bruta: mas resilientes, briosas, penitentes, sempre perfeccionistas. Com todos estes predicados, fatalmente levaria de vencida a crosta fedorenta do fogão, da banca, do exaustor...)

Por tuta e meia, estava ali o futuro do casal. Ela trataria dos grelhados, ela arrumaria a sala. Não tardariam os fundos para o casório, a filharada tão desejada. Ela não disse não.

Onde se situa o dito santuário? Lá para um canto qualquer da rosa-dos-ventos, parece. Não seria por acaso, baptizaram-no Peter Pan. E o dia da inauguração, planeavam-no no maior entusiasmo, os amigos já todos convidados, em extase perante a criatividade dos pratos, a variedade e a estética da  sua apresentação à mesa.

Ele imaginou um apêndice metálico, um gancho, sobre cada poiso do manjar, quase plano, a lembrar lousa, onde se penduraria - qual espadarte no cais - o peixinho grelhado, atapetado por esparregado, umas batatinhas... A modos que um fundo do mar lindíssimo, e a dourada, o robalo, a nadarem nele. O mesmo com a posta de carne magnífica, pingando sobre saladas, como se a vaca ainda pastasse no prado. Isso sim, seria inovação, genuína nouvelle cuisine! - Oh filha, e tu a cortares miudinho com a faca, ainda pões lá mais umas couvinhas às cores!

Ela mandou-o estar calado e proibi-o de se aproximar da cuisine, do mercado, da loja das loiças. Fosse varrer a sala de jantar e tratasse dos vinhos. Ficaria a seu cargo receber a clientela. Ao menos cobrasse as contas sem se enganar.

Assim o serviço foi funcionando em travessinhas de alumínio, bem recheadas de peixe ou carne, arroz e batata, alface, tomate e cebola a dar um tom de alegria e frescura. Very tipical...

Quanto às bebidas, ele lia todas as crónicas de gastronomia dos semanários. Decorara a terminologia dos enólogos e não havia adega cooperativa que não produzisse, servidos ali no Peter Pan, vinhos correntes os mais aprimorados e desafiadores do palato dos comensais - Então esses taninos? Esse final prolongadíssimo e afrutado? O peixinho ainda nada feliz nessa frescura, nesses aromas silvestres, hein?!

Tudo iria correr bem. Inscrevera-se até num curso de inglês, prevenindo a avalanche turística. Não fosse o maldito Covid, ele a sua conversada navegariam hoje com o vento pela popa... E com um primeiro filhote já integrado na tripulação.

 

De eléctrico até à Praia das Maçãs

João-Afonso Machado, 27.08.20

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Em Sintra pingava grosso e foi necessário buscar abrigo enquanto o eléctrico não chegou. Finalmente, aquela ronceira trepidação, a sua imobilidade e a jovem turista, agilissima, de um salto lá dentro. Em calções muito pela virilha, impedindo-me de, no tempo, dar a mão, uma ajuda elegante, à donzela que alçaria um pouco a saia do vestido e se firmaria no corrimão para subir os degraus. Porque a sombrinha, o chapéu com uma fita pelo pescoço, tudo atrapalharia.

E o tornozelo à vista, feito o câmbio, as longas e apelativas pernas desta provável britânica. O demónio, tal desnecessidade de ajuda, uma emancipação sem suspiros ou fragilidades!

De modo que nem corpetes, nem decotes, nem as carnações ebúrneas de antigamente. Apenas uma t-shirt e o umbigo de fora, um corpo ávido de sol, tudo tão perto e tão distante...

Ainda assim o tempo recuou na viagem até à Praia das Maçãs. À força, de atracão, impondo-lhe o laçarote do chapeuzinho de palha sob o queixo e vestindo-a com um olhar encantadoramente pestanudo. Um vestido leve de veraneio,  sempre em troca e destroca com as hot pants e a ausência de corpetes e espartilhos. Numa alternância de romantismo e gulodice, Galamares, Colares fora.

O eléctrico, realmente muito trôpego. Houve um breve momento Cisco e a visão das faíscas da máquina sem travões, para baixo é sempre a descer, o guarda-freio agarrando desesperadamente o comando, tentando evitar a tragédia. Sim, esse foi o instante do retorno ao vestidinho de chita, à sombrinha, a um imenso delíquio da apavorada miss, tornáramos finalmente à era dos galãs. Todos ao poleiro, a ver quem é mais galo!

A imersão do eléctrico em matas de pinheiros e depois a rasar casas e sebes, desviou a atenção para outras futilidades, e a despachada turista de esbeltas pernas e tanta auto-suficiência regressou.

Talvez ainda haja avistado a sua versão romântica, ao ser apanhado em flagrante de olhos nela. Linda, linda. E enrubescendo, baixando a cara. O chapeuzinho a cair, a cair, já no chão, esse o momento crucial - Can I help you? - e por aí fora, a Praia das Maçãs à vista, o termo da viagem, uma ajuda naqueles temíveis degraus, outra no labirinto das ruas.

Talvez o lunch, até... A imaginação não paga bilhete, viaja de borla, sempre sorrateira. Mas no destino, aquelas pernas que fugiam dos calções, em formas esguias e velozes, sumiram. É que as minhas, coitadas, já nem conseguiam acompanhar a sua pedalada. Poor old man!

 

"Os bolarecos da D. Alexandrina"

João-Afonso Machado, 26.08.20

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Andando eu doentinho, era certo o mimo da minha Avó: as bolinhas de coco, ora brancas, ora amarelas, conforme enroladas em clara ou em gema do ovo. O coco! Esse fruto empedernido e capaz de, ao cair do alto do coqueiro, rachar a cabeça a qualquer paisano! Nas Áfricas longínquas, não ali, transformados em raspas brancas, niquinhos que cobriam essas bolinhas e lhe davam um sabor especial. Quase ninguém gostava de coco lá em casa, pelo que a lata de bolachas que a Avó enchia era minha e só minha, sujeita ao mais descarado ataque, sinal de reconhecimento pela sua inspiração culinária. Sem zangas… Mais a mais, a Avó era a minha madrinha….

Depois, os anos  tomaram o freio nos dentes, um certo dia à Avô o coração disse mais não, eu, rapaz novo, triste, inconformado, fui distraindo essa lacuna de modos diversos – um deles com as éguas da Casa, cavalgando as redondezas - deixando os anos galopar muito mais depressa, até sentir o peso do corpo e dos sessenta, o título de sexagenário, suponho saudável mas mais guloso do que nunca.

Contei-o já:  quando descobri e comprei o meu palácio em Famalicão topei em frente o restaurante Portuguesa, o meu spkear’s corner. Futebol, política e coisecas da terra. É onde regularmente almoço ou lancho e janto.

Não que seja um lugar de variadas sobremesas. Mas há ocasionais surpresas. A mais recente das quais, os bolarecos da patroa, a D. Alexandrina.

Um passo fundamental para a História famalicense. Evidentemente, não posso revelar a receita. Apenas direi, o doce é feito a partir de um tipo de bolos de feira, iguais aos que o nosso trolha de antigamente nos oferecia quase todos os dias, difíceis de rilhar, mais duros do que a dentição, bolo penoso de duração indeterminada na sua deglutição. Somente, ali aparecem moles e saborosos. Recheados de marmelada por dentro e polvilhados a coco por fora. As tais raspas, a caírem do prato, que a gente depois com os dedos apanha e saboreia. O bolareco da D. Alexandrina, das pedras do deserto transfigurou-se num doce o mais apetecível que este mundo nos consegue proporcionar.

O fenómeno atinge, aliás, maiores proporções. Numa rápida incursão histórica pela Ordens religiosas de cá, descubro o mosteiro de S. Francisco, em S. Martinho do Vale, muito empreendedor na confecção de hóstias. E nada mais! Ora, sendo a D. Alexandrina uma santa senhora, os seus bolarecos tem, inquestionavelmente, de ascender ao estalão e à qualidade da doçaria conventual. Ela não se importará, pode até mudar-se o nome do manjar – secretos de anjinho, por exemplo; ou maminha do mesmo

Depois será o costumeiro percurso: a feira dos produtos artesanais, o reconhecimento dos forasteiros, a glória Europas e Asias fora. E uma latinha deles para cá. Por este meu modesto contributo… Ou talvez não: é deixar a minha dilecta sobremesa na sua fonte. Lá continuarei a banquetear-me. Avante, Portuguesa! Casa nobre de acepipes únicos.

Era o que, no outro dia, uma gordalhufas exaltada proclamava na caminheta: pela próxima quarta-feira iria lá por uma saca toda de bolarecos. Ah, pois!

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas, in Opinião Pública de 26.AGO.2020)

 

 

Farmácias lisboetas

João-Afonso Machado, 23.08.20

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O mal foi o remédio a menos. Os médicos para nada prestam! Vá lá a gente confiar neles!

O coitado, de si mesmo pouco seguro nas pernas, mal vitaminado, tomou-se de vertigens, estranha sensação que lhe apanhava o abdómen e a cabeça. E feria muito a vista, por onde o breu arrotava e se ouvia o som cavo do eco.

Valeu-lhe a vizinhaça, já no fundo das escadinhas. Nunca aquele arcaboicito contara tantos degraus tão velozmente. Descera-os de um passo só e, cá em baixo, tocou a gemer, a gemer. Combalido, sem se ter nas pernas, sugeriram-lhe tintura de iodo para o golpe na testa, uma fonte vermelha e abundante.

Que não, que não... Com mil entarameladas graças e um lenço empurrado contra a bica de sangue, entrou na farmácia logo ali. No fim das escadas, é claro. Socorrido prontamente, mil atenções em seu redor, veio o alcool desinfectante e, sob o seu efeito, despertou. A farmácia chamava-se, curiosamente, - taberna; e os seus dedos molhados naquela purificação estancaram a hemorragia. Até retomou o equilíbrio e cuidou de se lavar num pequeno recipiente, um cálice - assim chamado - emborcando o que dele sobrara. Sentiu-se novo.

Entoou um fado fatalista e, pelo sim, pelo não, pediu outra dose de remédio para a viagem, não fosse o diabo tecê-las:

- Era mais um calinhos de bagaço, fax'avor...