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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

De Chaves a Faro (EN2) - II

A EN2 desata-se numa recta prolongada, a zona industrial de Chaves, com muitas moradias à mistura. Acho eu a fazerem despedidas, mais do que a dar as boas-vindas. Impressão minha, passageira... - Então estes malucos seguem para o fim do mundo? - Porque o Algarve será as vésperas do Bojador, lá onde Deus não é. Mas, por ora, o ambiente está ainda vivencial, respirável, e o Vidago, as Pedras Salgadas, tudo foi ficando para trás, sem direito a visita. O mesmo com Vila Pouca de Aguiar e a traidora Vila Real,  tangenciadas ambas, até Santa Marta de Penaguião, um breve pousio.

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Não se descobrem ali histórias empolgantes. Santa Marta de Penaguião somente vai vivendo, muito mamando da adega cooperativa. Mas não esquece o seu lugar no roteiro, aliás anunciado a amarelo em marco desmedido. Andamos no preâmbulo do Alto Douro vinhateiro. 

Depois o percurso é confuso e encaracolado. Eu prometera á minha "pendura" mostrar-lhe do mais bonito da Região. Assim passámos a Régua, olhando-a pela janela do carro e, por caminhos não mapeados, a levei a Covelinhas, terra de gloriosas tropelias nos meus 40 e poucos anitos. Quando a gente ainda trepa varandas...

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Ali pescava, noite fora, carpas das encorpadas, iscando com massa de cotovelo cozida. E quase acredita em serpentes escondidas nos silvados que vinham a banhos no escuro. Somente topei uma vez uma lontra a banhar-se sob os meus pés de estátua...  Desta vez, azaradamente, o comboio do dia passou já connosco dentro do carro a manobrar para o regresso. Que opípara fotografia!, não fora assim...

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Mas a minha jovem "pendura" gostou das vistas, fartou-se de fotografar, até eu me ver na necessidade de invocar Cronos para subir ao santuário das vistas durienses - S. Leonardo da Galafura.

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O grande miradouro do rio, a essa hora já com as mais altas elevações afogando em sombra as inferiores. Nem sei por onde ela andou... De câmara em riste, calculo. Cá por mim, depois do retrato da praxe, dediquei-me aos muitos tentilhões do arvoredo, descendo amiúde ao solo.

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S. Leonardo me valeu - com alguma parcimónia, diga-se de passagem. E tarde se fazia. Pela estrada de Vila Real atravessámos a barragem de Bagauste e seguimos que nem uma seta para Lamego. A mais esplendorosa cidade duriense! - Vão lá vê-la, se não acreditam.

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Eram horas de comer, a fome matava. Entre três copos de tinto desses bandas, a roçar o licoroso, já não recordo em quantas fatias de bôla me perdi: de bacalhau, de frango, de carne ou de presunto... Um banquete! Finalmente a volta pela urbe - a imprescindível volta digestiva -  e o ingresso na amabilíssima Residencial nas cercanias da Sé. O almejado descanso! Porque amanhã a Reconquista só parará na Beira Baixa.

 

De Chaves a Faro (EN2) - I

Chaves, em suma, facilmente desmonta a história bacoca dos seus "defensores" com direito a avenida em Lisboa. É uma cidade lindíssima, cada visita, - cada novo desafio fotográfico.

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E, posta muito no alto, é o berço - ou o esquife... - da travessia do (novo) mundo português. Cidade grande e enganadora nos seus caminhos já longe do Tâmega, águas santas. Haverá que atravessar a ponte, experimentar as infernais órbitas das rotundas até, finalmente, alcançar o marco miliário-salazarista: o quilómetro zero de uma nação estendida mapa abaixo.

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Mais precisamente, o ponto de partida para a grande corrida de Portugal de lés-a-lés. Ao lado um simpático café, com vitrines de amplas colecções de miniaturas automóveis, onde comprei um emblema alusivo para a minha mochila (o desenho do dito marco desafiante) e em que se resguardam alguns velhos de nariz apepinado, bebendo o seu copo. Serão os fiscais do circuito, talvez. Os grupos de motards não cessam de passar... À conta da grande aventura, as caravanas ali estacionam, jipes com bagagem até ao tejadilho, rogando por um terceiro a tirar o retrato do conjunto. (Como na Gorongosa.)

Gozei o momento. De cabeça palmilhei centenas de quilómetros. Nas imediações desse ponto memorável, o desalento das ruínas. Mas porquê?

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Casas belle époque a cairem aos bocados. Décadas de varandins e janelas escancaradas e esquecidas, uma sombra sinistra sobre o celebérrimo marco decorado com capacetes boches cobrindo caveiras de dentes lavados e muitos caracteres góticos. Sobrava a velha placa em azulejo, intacta, delimitando as fronteiras da cidade.

Estranho lugar, logo à saída do simpático e convidativo café. Pensei comigo, será decerto o fim do fim, uma chicotada no lombo desta estrada que revive e é um símbolo. Estará para breve... - o renovado acolhimento dos que parte e chegam. Chaves não é um adeus aliviado, um - Olá! -resmungado...

Fizemos-nos à estrada, enfim. Até Lamego, cada curva, - quase cada mistério.

 

Ao fim da manhã, muito a norte

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Junho abre as suas portas e enche de sol o comércio. Longe dos grandes infernos urbanos, Junho anima as gentes, solta as linguas, é claridade, esplanadas ressuscitadas, mas nunca o descalabro. O caos mora duas provincias depois. Nas manhãs de Junho ainda se negoceiam bois e uns porquitos; vai-se à cidade por qualquer alfaia agrícola. E também ao talho, à farmácia ou à mercearia. A fugir um pouco para a sombra, onde as palavras trocadas entre dois velhos conhecidos não têm de pôr as mãos em pala sobre os olhares.

Sai um cafezinho, saiem umas águas, o balcão ou a mesa cá fora suscitam irresistíveis vontades de almoços abundantes. Carregados e variados. Crescendo muito por cima dos cabos de enxada comprados nas ferragens e das pencas na hortaliceira, tudo à mão de semear o rio, a ponte, um roteiro jamais rotina. Entre os mais novos, estranhos e importados penteados da antiga América do povo iroquês - aí mesmo, nas guardas da ponte, de cu para jusante.

Só entardecendo sobrevirá o silêncio; e no dia seguinte igual labor na cidade distante, onde os iroqueses passam as horas discutindo belicismos sobre o rio e a idade mais gulosa, e mais prazenteira, sonha com enchidos e cozido à portuguesa e vai à loja por umas ceroulas quaisquer.

 

"EN2"

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Ouvi nas caminhetas – Mas, afinal, o que é isso da Estrada Nacional 2? - E embatuquei. Fui estudar.

Conheci lições mais difíceis. Aprendi, e fiz um plano para a primeira oportunidade, que chegou agora. Estou de saída.

Ao tempo em que lerem estas linhas – a imprecisão resulta dos feriados próximos – se não houver novidade, andarei entre a Beira Baixa e o Alto Alentejo. Será quase uma semana de passeio, as minhas férias no exterior do Interior, e o decalque de rotas já conhecidas, há muito não transpostas, de mistura com umas tantas novidades. Falo, mais precisamente, da dita travessia da EN2, de Chaves a Faro.

Segundo me informei, a mais longa estrada europeia, e a terceira mundial. Para todos os efeitos, a versão portuguesa da famosa Route 66, que vai da ponta Leste à Oeste dos EUA. Atravessando quatro fusos horários, creio. Aqui, a gente é menos exuberante e, de resto, viaja de norte para sul – somos um país de simplesmente humanos… A obra tem a assinatura do Eng. Duarte Pacheco, ministro da II República.

A EN2 percorre, com bastante precisão, a espinha central do mapa nacional. Na problemática sanitária dos nossos dias, segue o percurso mais inocente, mais alheado da epidemia. É hoje uma rota corriqueira de peregrinação, – não religiosa – mesmo a pé, e já valeu, a quem a fez, alguns prémios literários. Deixo aqui a menção, bastante de cor, de alguns pontos do percurso. Em Chaves, descobre-se o célebre marco rodoviário que é o sinal de partida – está lá escrito: «Km 0»; e a referência a Faro, outros quase 800 para baixo. Assim, ouvindo-se dado o tiro do arranque, com passagem pelo Vidago, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Régua (prometi à minha “pendura” um desvio por S. Leonardo da Galafura, um dos mais exuberantes miradouros portugueses, sobre o Douro), Castro Daire, S. Pedro do Sul, Viseu, Penacova, Coimbra, Góis… A Beira vai em metade… Depois, Vila do Rei, Oleiros, a Sertã, Abrantes, a travessia do Tejo, a Ponte do Sor, o Alentejo imenso, S. Brás de Alportel, já nas serranias algarvias, e finalmente Faro.

Evidentemente, espero trazer ampla documentação e vasta fotografia de um Portugal que não é imenso (vem-me à ideia o meu filho mais velho, um aventureiro, e a sua travessia da Sibéria à boleia…) mas diversíssimo de região para região. Porque elas são muitas, envolvendo a paisagem, o clima, as gentes, os costumes. Resulta disto tudo a derivação para Castelo de Vide, Marvão e Portalegre, lugares de já tão distante memória.

Mais a mais, todos sabemos o que o Tempo é capaz, o que nos espera pela frente. Prenunciadamente, diferenças que desorientam, espasmos no GPS. Por tudo, o resultado de uma “prova” inconstante e difícil. Mas, creio, valerá a pena. Portugal é as vinhas do Douro, as serranias da Beira, o planalto, a solidão da Beira Baixa e do Alentejo. É um coração, um corpo de todos nós. É gente pobre, idosa, perdida entre as montanhas. Se dissesse ia conhecer o desconhecido, mentiria. Vou antes revivê-lo, voltar a sentir o distante de umas dezenas de quilómetros da azáfama litoral. E se trouxer provas dessa crua dualidade, duas em duas – o meu testemunho de povos tão perto, mas afinal tão distantes e diferentes; e o meu incentivo a que os famalicenses, em alternativa ao mar, vão conhecer os rios. Onde eles nascem e crescem e os nossos precisam de nós.

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas in Opinião Pública de 10.JUN.2020)

 

 

Por aí...

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Deve ter sido Soult, entrando em Portugal por Trás-os Montes. Ainda por aí se escreve e diz "garage", à moda dos franceses. Será a cause..., ficou a palavra mas o exército invasor não passou o Norte. Não chegou a Faro, onde espero, lá do sul, ver o mapa todo na vertical, como antigamente na escola primária, e depois subi-lo sem palmatoadas nem choros nem arquejos.

Aposto que a carta se amolda e me deixa dormir em cima, pobre de quem não tem cama...

 

No lugar onde não me apanham: na Moral

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Sendo a História a grande mestra da vida - como já Tucídedes anunciava - havemos de ler os Evangelhos sempre  na cortesia e no respeito devido a uma simpática, imortal, obra lírica. Com todo o aprumo. Mas sem jamais esquecer o pragmatismo, mesmo a severidade, do aludido velho mestre ateniense.

Por isso, a relatividade do perdão. Está bem - levas numa face, ofereces a outra. E por aí ficamos. O perdão é uma segunda oportunidade que se dá; se for uma terceira, já é uma fraqueza; uma quarta, uma loucura, uma obscenidade até - de todo o jeito um péssimo exemplo, mesmo um mal praticado contra a sociedade.

Pensar que as coisas são assim nem é necessário. Basta atentar no dia-a-dia, uma caterva de perfídias que receiam os candidatos ao Nobel do Bem, o galardão que por isso nem existe - e o da Paz tanto se atribui a quem tanto fez a guerra para pacificar.

Onde houver paz há disciplina. Consideração. Igualdade no trato.

Em nome do Coração, entreguem-se as chaves da casa à Razão.

Se tudo isto é uma heresia? - Talvez me engane, mas heresia serão os dez pecados mortais arrolados nas Escrituras, quotidianamente zurzindo, pelos piores, as costas dos menos maus; e mais e mais. Eles não merecem, e a sua defesa só pode consistir em abdicar de parte da sua complacência. Sobre as normas morais, vive o ser humano e mesmo o rigor de Cristo dizendo que os seus braços não são para todos. Só para os predispostos a aceitar, mais, falha, menos falha, as regras fundamentais.

Afinal,  o princípio básico: devemos ao próximo o que ele nos deve a nós.

 

Quase, quase sem munição nem víveres

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Já só queria acabar a corda da caneta, deitar fora a carga quase finda, e prosseguir em outras ideias mais voltadas para amanhã. Absolutamente à sorte, cacei uma fotografia: Viana, já esqueci em que ano, - não, é claro, a estação, com um mar assim adormecido só no Verão. Talvez tivesse trovejado esse dia, as baterias pareciam no ponto de descarga. Num céu quieto que mandou parar o vento. Pensei: eis aí a minha oportunidade de velejar, sob a inocência da brisa escondida. Mas permaneci de pedra no meu posto de infantaria.

Gozei as cores e a ausência de piratas. Canhões só mais logo, assim a tempestade mandasse soar as trompas. E fui ficando sempre.

Mesmo porque a carga da caneta não se calava. Era de repetição. Parecia querer-me naqueles esquisitos azuis, em cinzentos de ameaça e uma simples vela branca enfrentando a multidão de ar e liquido.

Coisa estranha, a fotografia! Onde a gente é capaz de ir buscá-las, a idos remotos que a paciência já não consegue arquivar! Viana, igualzinha aos amenos portos do sul.

E ia eu por aqui fora quando, enfim, a carga começou a arranhar, escrita fininha, o derradeiro suspiro, a dizer chega. Que aflição!, hei de alcançar o termo do parágrafo, se a brisa, se o calor..., será o Pacífico?, a morte dos mareantes pela sede, havemos de sobreviver, olha!, não há muito mais, mar lindíssimo, águas de algodão, espera aí caneta, só mais esta, espera, havemos de voltar a Viana. Algum dia!

Assim logrei não me afogar sem antes testar a favor de quem me leia. 

 

De um plano grandioso a uma reforma tanina

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Quando eu era rapazote... levei comigo no bote... uma ideia atrevida... O jovem filho mais velho do meu Pai imaginou-se, um dia, reformado e edificando uma fabulosa colecção de patos. De anatídeos, não subsistam confusões. Já muito tomado pelos bicos de papagaio, aí cultivava eu não sei quantas e quão coloridas raças: os trombeteiros, os mandarins, os zarros, os reais, as marrequinhas, os bufos, o ror completo das espécies exóticas que a gente vai topando por esses jardins. Isto tudo sem sequer me lembrar, patos e patas, por uma letra apenas, não são o mais completo desempenho de infantilidade ou pouca-vergonha.

Sobrevindo essa incómoda noção mais tarde - juntamente com outras que não facilitariam o programa - ainda assim dispus-me a ensinar alguns rudimentos de boas maneiras e de moral à pataria. Sim, seria um pastor evangélico na minha reforma: do bando de anatídeos e da sua sólida formação catequética. Seria um apologeta, os pés descalços a abanarem-se na água verdinha e morna do laguinho, muito flutuada por penas dos meus patinhos. Revestido de uma túnica e capuz já muito comidos da traça, mais o bordão pintado da cor dos limos.

Ensinar-lhes-ia coisas puras como a castidade dos zarros além das zarras, ou a dos mandarins não sendo com mandarinas. E por aí for, proclamando aquilo não seria um parque público, mal frequentado e desavergonhado; antes um espaço elitista, um anfiteatro da Ciência internacional.

De tão fiel à ideia, quem me conhece sabe, desde 2004 não atiro aos patos nem, por qualquer forma, os mato.

Ensaiei diferentes quá-quás, visando lidar com os seus vários dialectos. Dispus-me a amá-los como Abraão amou a sua descendência, depois de quase jugular o filho Isaac. Em mim, também, a mão de Jeová...

Mas correu mal. A Apologética não é comigo, cada vez mais percorro os trilhos exegéticos. Estou velho, carregado de hábitos cenobitas. E, com dois perdigueiros, a manter patos o meu destino seria o Inferno, fatalmente. Além disso, vem aí uma reforma miserável.

 

"Vai ser já"

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Mandam os dias em ponto grande, a renderem muito, e o calor que faz, é tempo de férias. Pode até não ter sido ainda declarado aberto o período oficial de banhos, mas as férias não são só praia. Muito menos Julho, Agosto ou Setembro, apenas.

De resto, vamos percebendo, este ano as férias balneares, hão de nos infernizar mais do que uma ida aos Correios (desculpem-me as meninas da agência famalicense, sempre simpatiquíssimas). Será também, com certeza, necessário tirar um ticket para mergulhar nas ondas. As mães, acompanhadas dos respectivos filhos, terão preferência. Os cavalheiros de antigamente cederão o seu lugar às senhoras… Com tudo isto, sabendo que se quer o distanciamento entre as pessoas, não me sai da ideia os magotes de laranjas da Carris circulando mar fora.

Quanto a praia, este ano, só esporadicamente, aqui perto, e se surgir alguém comigo, à pesca de um peixito grelhado – e não besuntado de gel.

No mais, conduzir-me-ei ao estatuto de monge tibetano famalicense. Recolhido à minha cela, meditativo, contemplativo. As férias são um bom momento para ouvir, cheirar, sentir, a rebaldaria do mundo lá longe. Para revisitar os cantos da casa, aprender a dar nota do reanimar da cidade. Isto tudo, claro, se a cidade sair para férias. O que deverá acontecer a pequena escala, salvo fugazes escapatórias ao tal peixe grelhado. Ainda assim, prevendo-se um verão muito quente, as pessoas andarão recolhidas, mortiças, e não seria má ideia esta fase final da I Liga de futebol fosse transmitida em canal aberto. Ou então, convide-se o Dalai Lama – e meditemos, contemplemos todos.

Ocorre-me, entretanto, não haverá descanso para grande parte dos que tentam evitar o País entre no caos económico. É um pouco nesta ordem de ideias que organizei os breves dias da minha ausência. Já em Junho, correndo adiante de multidões munidas de tickets, e por caminhos delas pouco conhecidos.

Quais sejam esses caminhos, é o que contarei, em pormenor, no meu regresso. Direi apenas, são rotas estritamente nacionais. Nem um pezinho no mar nem, tão-pouco, do outro lado da fronteira.

Os preços, à míngua de procura, estão muito bons. Continua a assistir-se a uma vaga grande de estabelecimentos que não reabriram, não viram condições para tal. Os apostados na aventura merecem o apoio que cada um de nós lhes possa prestar. Ir, almoçar e jantar, dormir e prosseguir. É dinheiro que não sai de Portugal, por cá girará, de estalajadeiro para o merceeiro ou o carniceiro, e destes para a senhora florista… E por onde passar, esse dinheiro (não os meus parcos cêntimos, é óbvio), animará o comércio, fomentará as transacções.

Em suma, fazer férias cá dentro. Não transmitindo o segredo à estrangeirada, é deixá-los vir, de saúde enxuta.

Eles são, de resto, os primeiros a reconhecer os encantos de Portugal. Dos quais, insisto, ainda haverá um capítulo seguinte. Delineei o rumo, parto entusiasmado.

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas, in Opinião Pública de 28.MAI.2020)

 

 

Esperando agradar, só queria um beijo...

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A gente até se demora no malfadado telemóvel. E eles por ali, gozando o passeio, fitos nos saltos das rãs. Numa excitação que lhes provoca sede, um dar à língua sôfrego na borda do lago. A pequena, então, olha para mim, esperando qualquer coisa - mesmo um esticar de queixo muito prognata, ou apenas um monossílabo, «Vai!».

E ela vai. Mergulha afoitamente, debate-se cheia de músculo na atrofia dos nenúfares. Depois regressa e, ao sacudir-se, presenteia-nos com uma chuveirada das valentes. Mas não há como ralhar àqueles olhos. Os cães são muito sensíveis do que nós, mesmo o menos sagaz perceberia: a pequena sabe que o espectáculo é apreciado, gosta de agradar, anseia agora por um gesto à altura.

- Muitos parabéns! Linda! Linda menina, valente! - E é mais uma lambidela torrencial, umas calças enlameadas, o toquinho dela a dar-a-dar e nova corrida para a água. Lá dentro, antes da volta, o tempo ainda para toda a ternura do mundo posta nos seus olhos. Assim uma santa tarde na paz do Senhor.

 

Caro Zé! - espera só mais um ano

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Para este escrito fui buscar uma das minhas canetas de eleição. Uma peça rara. Assim ela cumpriu e correu no papel sabendo falar do que me vai na alma. Qualquer coisa como 48 anos de obscurantismo, - uma ditadura, um 25 de Abril resultante dos quilómetros e do acaso. O reencontro com a democracia - caneta metafórica! -  a tal que não ignora os paradeiros.

Sou um gongórico!

A minha caneta também, carregada de tinta do tinteiro que vinha no estojo, mais a beleza de uma sinfonia CD do Mozart. À grande é assim, presente de amigos de sempre. No caminho para onde vão os meus anos, a dita caneta dormirá no meu bolso. Velho, engravatado à inglesa, resmungão e pouco dado.

Sou um gongórico! Já se percebeu porquê.

Por tão rebuscada introdução só para só para contar, há dois ou três dias reencontrei um amigo, no fim da tal longa noite fascista. Tão somente.

Ele veio cá em serviço. Almoçámos. Vale a pena acrescentar, o seu gosto ia para o branco seco. Eu opto sempre pela casta moscatel. No mais, a politica é uma velha sem conversa. O Reino (de ambos, e nisso só) foi mandado pela gastronomia e pelas memórias.

Falou-se de quase tudo, o tempo era curto, Lisboa no hemisfério sul. Trocámos livros da autoria de cada um. E fizemos como o zé-povinho perante o Sr. Covid19 - um manguito, leia-se, um grande abraço final. Nenhum tinha tossido..., e ambos estávamos com vontade de comer. Deus quererá - em próxima ida a Lisboa, uma festança daquelas.

A minha caneta, pouco habituada a grandes lavores, diz-se cansada. Vai daí, - até breve meu velho!

(Só mais um pingo, caneta, - a lampreiada não fica esquecida, é por minha conta.) 

 

Por aí...

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Quando não há cometas nos arredores, a Ciência vira-se para a Zoologia. Agora mesmo anda-se interrogando, quem melhor capacitado para dar transporte, alimento e guarida a pulgas e demais parasitas.

Assim a Ciência aprendeu sobre a fertilidade entre espécies. Cruzando caninos com ovinos, obteve formidáveis guardadores de casas e tosadores de jardins. Além de um majestoso palácio de carraças ao mais puro estilo manel.

 

"Ausência"

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Um dia se soube de madrugada

o granito era finito,

mesmo a rocha era nada.

 

Mesmo as cores,

um primeiro sinal, olhos enganadores

do verde musguento nos penedos, acastanhado,

 

vai-te dama posta na cama, animal em cio,

barulhento, ensujado.

 

Porque isso e tudo o mais são arredores!

 

O mundo é o azul do céu sem fim.

Só! – calado nicho de amores, Mãe, em pó do mantéu aberto em mim

 

súbito devoto assim.

 

 

"Lá longe, ao cair da tarde"

Dos mais bonitos poemas e cantares do fado de Coimbra (e não venham com histórias, Coimbra tem o seu fado, o dos estudantes, - estudantes há muitos..., é por isso mesmo, - como só na Lusa Atenas podia ser fabricado), um desses mais bonitos poemas e cantares, dizia, está nas estrofes que se seguem, sendo que desconheço a autoria desta proeza escrita e pautada:

Lá longe, ao cair da tarde,

Vejo as nuvens de oiro

Que são os teus cabelos

 

Fico mudo ao vê-los,

São o meu tesoiro,

Lá longe, ao cair da tarde.

 

E vou lembrando aparições, no tom prolongado do fado, serenas aparições de gamos em pastos domésticos a cortarem-me as palavras, quase acreditando em divindades da Antiguidade greco-romana.

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Se calhar na avidez de uma vida diferente, anacrónica. Onde o que é impossível não seria. Num ocaso inesquecível, o início de uma nova era:

Lá longe, ao cair da tarde,

Quando a saudade

se esvai ao sol poente

 

Como canção dolente

De uma mocidade,

Lá longe, ao cair da tarde

 

Seria o retorno de andanças antigas. E a paz do olhar da mulher mais bonita.

(Passeiam-se meninas lindíssimas, namoradeiras, nesta vista tão vesga, voltaria ao namoro delas as vezes que fosse preciso.)

E ao resto, seriam caminhadas, espingardas, os cães e o pão e chouriço, o vinho mais a água da fonte. (Uma fonte, ambrosia!) Seria outro planeta, ou este começado do início. Mas seriam pessoas, animais, a pureza do ser, o ameno regresso a casa e antes a benção do Reverendo Abade a ofertar a mesa, chá e torradas, ladrilhos de marmelada. Tudo "derivado" (como sempre escreve Lobo Antunes) ao gamo, jovem mas já a querer pôr-se nas burras, o malandro.

Lá longe, ao cair da tarde...

 

Por aí...

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Sou saloia, fui da pesca. Eu mais o meu homem não havia dia não fossemos ao mar pelo peixe, estivesse ele chão ou mais alevantado. Até aquela vez de uma onda lambona, traiçoeira...

O meu homem, quando o tiraram da água, morrera já. Escapei, tolhida pelo frio, molhada até aos ossos e viúva. E sem o meu homem que hei de fazer agora senão esperar a ferrugem e a velhice me levem depressa para junto dele?

 

"Tempos rotinados, maçadores"

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Maio vai a caminho de metade e este fim-de-semana apanha-me não especialmente bem disposto. Há de ser o vírus, rondando por aí, confinando as nossas ideias, quando veremos, de uma vez por todas, o F. C. Famalicão a jogar novamente?

No dealbar desta macabra história, havia encontro agendado com o F. C. do Porto. As semanas entretanto corridas têm o peso enorme das décadas, dos séculos, e proporcionam a vaga lembrança de um tal Pinto da Costa, sempre polémico, ainda vivendo, o Presidente do clube que seguia à frente na Liga principal. Mais recordamos, dada a volatilidade com que os jogadores mudam de camisola, apenas os nomes de dois ou três dos seus craques. Quando valerá a pena regressar aos jornais, analisar cientificamente as tabelas classificativas, fazer cálculos, estimativas e estatísticas, sonhar com o FCF na Europa? Tudo isto às voltas com uma cerveja, numa roda barulhenta de amigos no café…

Da televisão escapam-se notícias extraordinárias: parece que o Governo se prepara para cercar Fátima, conquanto sem propósitos persecutórios; tratar-se-á, apenas, de colocar barreiras à vinda dos peregrinos. Do meu ponto de vista, esta República está a abusar um pouco do seu laicismo, mas estou pronto a retirar o que digo se a outras crenças, lá mais para o fim do verão, também recusarem as romagens respectivas…

Chove. Os meus óculos não são dotados nem de desembaciador, nem de limpa-párabrisas. E o ir às compras impõe o uso da máscara, impossibilita-me a condução pedonal em dias assim molhados. Ainda por cima, isto é seca para permanecer, os números da expansão da Covid19 nada de bom pressagiam. Consegui marcar para uma semana depois o corte de cabelo na barbearia…

Valem os livros, o papel e a caneta. Vale a terra mole de hoje para não escalavrar o bico desta com que escrevo, coisa macia, requintada, uma pechincha de há muitos anos em loja a liquidar… Assim se vai arrastando o fim-de-semana. Com um nico de sorte acompanhado dos perdigueiros (cujo faro não alcança coronas, felizardos deles) e da ultimamente tão desaproveitada máquina fotográfica.

Enfim, para não terminar em desgraça completa, sempre lembrarei, Famalicão parece mais compostinha no capítulo dos números da doença. Estabilizou em trezentos e bastantes contaminados e vão lá semanas não sai daí. Mais: há cinco dias, dados oficiais de agora, não se verifica algum caso novo. Não sei de muito mais, nas caminhetas as vozes resultam abafadas pelas mascarilhas. A gente já nem conhece a gente! Mas não ouvi falar da morte de alguém, oxalá possamos dizer – pas de nouvelles, bonne nouvelles… É o que mais desejo aos meus conterrâneos, do fundo do coração, e, se contaminados, ao menos necessitem apenas de permanecer em casa. Assim também, claro, para todos os portugueses, arrumemos com esta porcaria daqui para fora o mais depressa possível, que muito há para carpinteirar…

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas, in Opinião Pública de 14.MAI.2020)

 

 

Da toca da raposa...

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... Fogem cinquentenárias lembranças de um buraco enorme e muito concorrido, a avaliar pela terra solta na entrada. Havia um outro, ao lado, e os fox terriers da nossa meninice, ali chegando, davam em doidos, sumiam cavidades abaixo e regressavam às recuas, danados porque as raposas lhes tinham trocado as voltas.

Volvidos 50 anos, o buraco está lá, tragado pelo folhedo que se acumula, pelos musgos, carcomido e mirrado na sua velhice. Mas permaneceu, mesmo em ruínas, como um verdadeiro castelo raposeiro, provavelmente cheio de fantasmas e histórias. Como aquela que decorre num penedo mais acima um pedaço. O Pai era ainda rapaz novo, fazia a sua espera e a raposa apareceu. Ficou ao primeiro tiro, estendida, moribunda, e o Pai, para poupar um cartucho, resolveu pôr fim ao sofrimento da bicha com um golpe da coronha da espingarda. O resultado foi a mesma se ter partido e o arranjo subir a uns 200$00, elevadíssimos à época.

O Pai gostava de batidas. Todos os anos organizava duas e acompanhei-o muitas vezes. Puxei-lhe a manga a chamar a atenção para uma ladina que se esgueirava, sorrateira, nas suas costas. Lembro o tiro, a cambalhota dela no ar, os muitos galgos e podengos das matilhas de Fradelos.

Nos meus 15, 16 anos tive, por fim, autorização para participar armado com a velha espingarda do Bisavô, que o Pai depois me ofereceu. Uma arma francesa, de cães, lindíssima, hoje exposta em repouso da sua intensa actividade venatória. Dava-me boleia o fiscal do leite, que Deus tem, velho malandrim sempre obsequioso, na sua furgoneta rumo aos montes das grandes freguesias a poente.

Raposas, via-as aos milhares, povoando já mortas ou ainda vivas a minha imaginação. Mas só aí... Muito posteriormente comecei a frequentar batidas na Região Centro, onde sobretudo cacei pratalhadas de feijoada no imprescindível almoço de confraternização final.

Mais tarde, ainda, convenci-me as raposas não são animais para abater. Meritoriamente espertas, bonitas, graciosas, o seu fim nem o argumento da samarra o justifica, até porque já tenho uma. O dos ataques aos galinheiros também não, as penosas põem ovos suficientes para satisfazer o conjunto inteiro da Humanidade e da Raposidade. Além de que as lixeiras nos povoados proporcionam hoje um cardápio variado, gourmet, que as nossas amigas de longe preferem.

Por isso muitas deixei já passar em montarias, finórias, as primeiras a escapulirem-se das matilhas, lampeiras, descaradas às vezes. Mas enfiar-lhes uma bala para quê? Aliás, nas montarias hei sempe o azar de empunhar a arma quando passa um animal fotografável; e a máquina em maré de bicho bravo a jeito. Não haverá pacifista que se incomode com a minha presença em tais ocorrências...

Fecho a tampa da caneta já cansado de tão longa caminhada. E olho para trás: pouco me acompanharam até ao fim... Vou pensando nas teias de aranhas, nas centopeias, nos ossículos que a velha cova, ainda mais espremida, guardará nas suas entranhas. E tomado pelo pó das décadas, lembrando raposas quase da minha idade, os latidos do Bi, da Bisca, do Jau, tossicando saudades e mais saudades, abro uma cerveja a recompor-me. À vossa!!!

 

Lembrando prognósticos antes do jogo

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A falar verdade, já não sei onde está o grande barómetro do Pai, esse em que, mesmo antes da electricidade e da televisão, se deliciava, ou desanuviava o espírito, à conta das eternas vicissitudes da lavoura. - A pressão está a descer, isto vai mudar, - calculava o Pai, com aproximações até uma semana, normalmente bem sucedidas.

Eu não procuro o barómetro do Pai, do mesmo modo que há lugares onde me custa entrar, ou sons que prefiro não ouvir. De resto, sei ler um termómetro ºC e viv'ó velho...

Mais pronto e mais verificável era o prognóstico da Avó, assim soasse o longo apito da automotora: - Amanhã chove! - proclamava com a certeza que tinha em Deus e em todos os anjos do Céu.

Ventava do sul, do lado do apeadeiro, a uns dois quilómetros de nós... O barrir dos comboios, o matraqueio dos carris, enchiam a noite escura, juntamente com o alarido dos cães. Do postigo da casa-de-banho, viamos-los ao longe - tão ao longe como as férias, os amigos, o Bonanza ou o Chaparral... - furando o breu como um pirilampo e a sua numerosíssima família. Sempre convictos, entre aquelas janelinhas iluminadas, a essa hora, ninguém viajaria. Só de pijama, talvez, já a lavar os dentes para se enfiarem na cama, em Nine, Braga ou Valença.

Ainda ontem lá passei no apeadeiro. Seria impossivel, à Avó, prognosticar o seu estado actual. Sem passagem-de-nível, sem a venda da Laura, que morreu centenária. Com a graça das coisas desmantelada como o mais pífio «material circulante». Sem vivalma: apenas com uns letreiros electrónicos e, muito fanhosa, uma voz que repete avisos e informações. Qual quê?!, os colarinhos coçados, a gravata sebenta, nas bilheteiras de antigamente! E as «composições» não andam, - deslizam. Às vezes nem param, numa esquiagem sibilina até Lisboa. Fatalmente a abarrotar de gente. Entre taludes de plástico decerto para prevenção dos ataques dos índios ao cavalo de ferro.

No tempo dos cowboys havia sempre lugar sentado para sonhar o sonho todo ou ler o jornal inteiro. As «motoras», equipadas «à Braga», iam para norte, voltavam para sul, sujas (mas não grafitadas), tresandando a tabaco, elas mesmo fumegando pela chaminé. No entanto, não consigo diagnosticar, apesar de tudo, como que se chama esta saudade desse viver.

 

Hoje podemos jogar à bola

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É uma vida diferente, mas uma vida melhor, seguramente mais arejada e conversada. Com todas as necessárias cautelas, voltou-se à rua. Quase todos... - do funcionalismo público escassas notícias há. E não é que as pessoas delirem com o programa, mas temos prazos, incertezas, burocracias..., e tudo o mais que esse velho pirata, o Estado, vem inventando para nos atazanar.

Foi bom, de qualquer maneira. De repente a cidade (esta nossa capital concelhia) acordou barulhenta e movimentada. O comércio, quase todo aberto, com um aviso pregado nas portas, lembrando a obrigatoriedade das máscaras. Assim vai o novo mundo, posto atrás de uma cortina que enche os óculos de nevoeiro e abafa as falas, às vezes escorrega nariz abaixo.

Talvez tudo seja uma ilusão. Um recreio, um intervalozito de descanso em mais um difícil exame da vida. Aliás, de longe o mais complexo da minha geração. Somente, era imprescindível, esse coffee break, e as consequências virão a seguir, não sabemos se boas se más.

Os números mais recentemente apresentados não tranquilizam: os infectados aumentaram e muito. Mas, como diz um amigo, a pior epidemia ainda é a do pânico. Ou então o lamiré sempre dado - Vai correr tudo bem... - assim como quem, cheio de medo, enfia a cabeça na areia.

Até nova ordem, gozemos disciplinadamente estes dias de liberdade tanto quanto. O pânico é muito doloroso, mesmo para quem está à volta. Dispõe de vacina, mas a seringadela doi que se farta (conquanto se lhe siga uma tranquilizadora sensação algures entre o desprezo e a comiseração). Quanto ao alheamento da realidade... não se recomenda nem a uma dona de casa!

 

Um domingo fugidio

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Ontem ao amanhecer, o sol era quente, chegava aos 30º minhotos, um brasume, ante a escala dos termómetros sulistas. Uma emoção, o cantar das fontes!

Nos caminhos da aldeia, as famílias saíram à passeata, nos costumeiros calções e fatos-de-treino. No semblante das gentes, o adeus – vai-te embora! – à doença. Em boa verdade… Mas de todos é legítima a alegria, breve que seja, - somos livres! Uma ilusão, decerto. Compreensível, salutar.

Aliás, os domingos hão de ter sido inventados para isso, não para carpir as mágoas neuróticas do amanhã segunda-feira.

Assim também me fiz ao campo. Entre o florido multicolor primaveril, uma delícia.

Os cães desencantaram um coelho, de rabo alçado á minha frente, e correram felizes as ervas bravas dos barrancos (onde iria já o coelho…), estafados, sem trelas, a cheirarem a sua identidade. Depois, quase secaram uma poça, tal a sede. No regresso, pelo estradão, o inicial receio dos libertos (- Não tenhas medo, nenhum mal te fazem… - ) e, por fim, as simpáticas boas-tardes, prazenteiras, num domingo saudável, parceiro, bem almoçado.

Ainda fui ao lago, que já prenuncia os nenúfares. Batia-lhe em cheio o sol e os peixes vinham à tona, de barbatanas preguiçosas e a cabeça fora de água. Na canícula é assim, nós mergulhamos, eles emergem e banham-se de ar seco, também a contarem os segundos e vesgos, nada percebendo. Mas muito mais discretos do que o pessoal das piscinas, tímidos, sempre sem estardalhaço. Reinando sobre a peixada, o famigerado tubarão-laranja, o Moby Dick aqui da paróquia. Uma carpa japonesa colossal sempre nos fundos esverdinhados do lago. Lenta, fantasmagórica, aparentando não ser medrosa. Tenho para mim, assim a alaranjada figura desse esqualo viesse ao de cima, havia eleições. E seria uma catástrofe…