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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Espreitando dois meses

João-Afonso Machado, 11.07.20

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Diria um funcionário público: é um tordo. Ponto. Correndo o imenso risco de prejudicar a nobre causa da gente livre, agarrado ao manual, sai a alternativa - é uma tordeia.

A tordeia é maior. Mais pintalgada no peito, manchas grandes castanhas. Além disso, sedentária. Boa cantadeira, assenta-lhe muito bem o Minho. É uma companhia tão agradável como os melros, e talvez assobie melhor e melhor regale a gente nos fins-de-tarde.

É do que a vida se faz - de lotear espécies animais, as aves, que são as de maior beleza. Este para aqui, aquele para ali... Ler-lhes o voo, o piar, as formas, saber distingui-las, pelo ninho que seja... Tudo destaca a maçada que é trabalhar e ter clientes. Aos 60 anos já se pode dizer isto em voz alta e procurar outra bicharada em honra ao nosso saber.

Ontem, no Parque, também se viram lagostins-de-água-doce, armados até aos colarinhos. Coitados!

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Apanham-se delicadamente pelo traseiro, e assim se tornam inofensivos, se já não o eram antes. Fica sempre a interrogação - que fazer deles? Há quem saiba, e parece que combina muito bem com umas cervejas. O mundo tem imenso para nos ensinar. Mesmo na Provincia, e sobretudo no Verão.

É um consolo. O mais, acrescentaria Ricardo Reis, - é nada.

 

"O «Vivas» na R. Vasconcelos e Castro"

João-Afonso Machado, 09.07.20

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Abriu em 1965, sob a batuta do Sr. Isac Vivas, como pensão e restaurante. O que fazia todo o sentido porque – os mais velhos estarão lembrados – ali, na Rua Vasconcelos e Castro, estacionavam as caminhetas oriundas de todos os pontos cardiais. Chegavam de Braga, de Guimarães, do Porto, de Santo Tirso, da Póvoa de Varzim… Ou para lá se dirigiam, e em Famalicão carregavam e descarregavam. Na dita artéria ou na vizinha Alves Roçadas. Por isso, a animação constante nestas bandas, com as muitas empresas de camionagem a marcar garrida presença: as do Abílio (a marca famalicense), do Marinho, do João Carlos Soares, a Pacence, a Ferreira das Neves… Haveria esperas, atrasos, a fome do almoço, pernoitas, até. Para tudo isso, o Vivas  chamava, convidava, ali ao lado, mesmo à mão de semear.

Tudo mudou. Veio a “Central”, vieram os autocarros, muito menos chocarreiros, corredores de longas distâncias, não raro de vidros fumados, já não há janelas que se abram, nem cabeças de fora num último adeus. Muito menos bagagem empoleirada no tejadilho daqueles foguetes de auto-estrada. A Rua Vasconcelos e Castro esmoreceu, perdeu movimento, e o Vivas teve de se adaptar. Transfigurou-se em café. E assim continuou vivendo, agora já na idade dos 55 anos.

Em 1994, entretanto, faleceu o Sr. Isac Vivas. Os filhos prosseguiram o negócio. Talvez, no ramo, o mais antigo de Famalicão.

Mas não é só. O Vivas soube manter, até hoje, quase tudo do antigo e saudoso café. Ali se regista o totobola e o euromilhões, ali se compram raspadinhas e se sonha com fortunas fáceis e repentinas. Ao balcão, enquanto o Sr. Carlos manipula a maquineta, os clientes numa ânsia de casas novas, da piscina, das viagens, do Ferrari. Ou talvez apenas de uma vidinha mais folgada, com nada de ais! e ralações.

No Vivas se lê o jornal ou toma uma meia de leite a empurrar a torrada. Demorando a manhã inteira, sem pressa, contemplativamente. De portas amplas para a rua, ainda ali se fuma um cigarro e se assiste e discute acesamente o futebol. No Vivas, os ecrãs são vários e tamanhões, apontando em simultâneo a muitos continentes e campeonatos.

Só agora, com este diabo da pandemia, o Vivas fechou temporariamente o seu bilhar. Um snooker, ainda de muitas tardes de uso e disputa. Mas continua com o que eu já considero uma arte, um requinte, algo difícil de encontrar por aí – uma boa caneca, fresquinha, de cerveja de pressão.

São assim os quietos momentos passados no Vivas, de olhar no passeio onde andarilham memórias antigas; ou lendo o jornal, ouvindo novidades que surgem aos soluços, sem altura certa, ora vindas daqui, ora de além; ou, quando não, assistindo a uma empolgante partida de futebol. Agarrando a caneca pela asa, como há décadas nas cervejarias do mundo académico. Sorvendo mais um gole como se me espreguiçasse até esses anos já tão longínquos. Impera a calmaria, o mundo perdeu subitamente a pressa. Ressalvando o cliente de quem se ouve a voz, convicto a tentar a sua sorte nos milhões…

 Aconteceu até um dia ali realizar parcialmente esse belo sonho de uma fortuna rápida – comprei uma raspadinha e ganhei vinte euros!

 

(Da rúbrica Ouvi nas Caminhetas, in Opinião Pública de 09.JUL.2020)

 

 

O meu Borgward

João-Afonso Machado, 06.07.20

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As velhas luvas em cabedal fininho, de primeira qualidade, resistentes até mais não, deixando as falangetas de fora, são a mini-saia herdada de um tio militarizado e vetusto. Um senhor! O cachimbo esguio e de tão bom fumar, enfornado de aromas especiais, também. Esse tio era um germanófilo fanático - velho e saudoso tio! - de quem toda a vida, a medo, escondi a minha anglofilia. Não fora assim, no que me iria meter!

Mas, tão forte a sua ligação a este seu sobrinho, na hora triste da despedida, rezava o testamento as ditas luvas e o cachimbo assessoravam o grande legado a meu favor - o Borgward do seu coração, o carro que conduziu sempre, enquanto as forças lhe consentiram andar na estrada.

Deixou-nos vão lá uns anos. Jamais me ocorreu modificar as suas cores, ou fosse o que mais fosse. A máquina - impecável, rosnando sempre no sotaque de Bremen. Somente, resguardei-o para percursos breves, condizentes com a sua idade. E conciliei os dois lados do Atlântico com o meu casado de tweed, a gravata fininha, discreta, e o meu boné preferido, made in Newcastle. Jamais negligenciando as venerandas luvas e o cachimbo, carregado de flavours escoceses, vale dizer,  de whiskys fumados. E assim ele se mantém rijo e, se se enerva e acelera, ruge a ultrapassa a malta pacóvia.

Ultimamente, ouvi algures, o malandro do Borgward tem uns parentes da geração dos meus netos. Não gostou da novidade, devo confessar. Queixou-se, seria gente bastarda. Prometi estudar a sua genealogia, saber o que se passava, cachimbei com mais força a firmei as luvas no seu avantajado volante. Que não se fosse abaixo das rodas... Para já, averiguei, tinha uma parente muito atleta, muito germânica, de seu nome Isabella. Se fosse viva, andaria pela idade do meu Borgward, quiçá um pouco mais nova. Terá sido dela essa descendência espúria? Ao que consta, usava já uma mini-saia tão curta quanto as luvas que me foram legadas.

 

A Monarquia pelo Minho - V. N. de Famalicão

João-Afonso Machado, 05.07.20

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No meu regresso a Famalicão, terra das minhas origens, depois de longos anos de ausência, fui reencontrando ou conhecendo pessoas, recriando ou criando novas amizades, enfim.

A breve trecho, já me organizava entre grupos vários e casas de comer e frequentava uma animada tertúlia das mais diversas proveniências políticas.

V. N. de Famailicão é uma cidade, um concelho, de trabalho e modernidade, onde não é provável encontrar alguém invocando vetustas raízes e tradições nobiliárquicas dos seus antepassados. É esse o contexto ideal para avaliar certas e determinadas convicções de princípios ou de ideologias.

Sem nada pedir ou perguntar, os meus conterrâneos, amigos de longa data ou mais recentes, vieram tendo comigo, versando o Ideal que jamais abandonei, e já era meu quando daqui parti para a minha vida profissional. Sabiam-me um indefectivel da Monarquia. E manifestavam, então idênticas convicções. Em alguns casos, reconheço, para imensa surpresa do meu lado. Mas – sempre sem nada pedir ou perguntar – fui ouvindo essas vozes todas. Gente inconformada, saudosa de uma História com o garbo de antigamente, revoltada com o Presente, descrente do Futuro. E espantosamente bem informada, de alma devota ao nosso Rei.

Assim reforcei contactos, criei até um grupo comparsa. Da boa conversa, de permanente renovação de fé. Pelo menos em dois restaurantes, começando pelos seus proprietários e prosseguindo nos comensais, o debate pauta-se pela sintonia – para Portugal, a Monarquia!

Ficou-me a crença, não é o tempo de institucionalizar, ou de programar o que seja, em função destas boas ideias. Mas apenas de deixá-las fluir. De resto, intentasse eu tal propósito, o meu anarquismo nato – invoco o saudoso Camossa Saldanha!... – em nada ajudaria a formar estruturas e hierarquias.

Não, por mim, e por aqui, será assim o nosso pensamento. A nossa fidelidade à Coroa. Afinal, o nosso Reino.

Chamem-lhe tolice. Mas à gente da minha terra não proponho mais do que prosseguir e sonhar um diferente devir. O que é muito mais do que pouco. Queremo-nos assumidos e somados para o dia do grande Ideal.

O qual, acreditamos, chegará. Paulatinamente, conforme vou sustentando perante os meus pares famalicenses, depois de uma IV República, necessariamente de transicção. Algo em que todos, creio, deviam pensar. Uma IV República que substituirá a sua desgraçada, miserável, antecessora, caindo sem parar de podridão. Uma República com outra gente, menos fechada, em que a El-Rei sejam proporcionados os meios de se apresentar como uma alternativa capaz de vencer o lixo maçónico que nos tolhe.

Para já, vai sempre crescendo a ala dos menos enérgicos, talvez, mas categoricamente afirmando – em caso de referendo voto na Monarquia...

 

(Publicado na Real Gazeta do Alto Minho, nº 24)

 

 

De Chaves a Faro (EN2) - VII

João-Afonso Machado, 03.07.20

Paragem em Mora para o almoço, com uma rápida ronda pela vila. Era feriado. Lá para o centro, um restaurante aberto, uma fila imensa à porta. Tudo o que desapetecia. Era o Afonso, um nome magnífico, cheio de realeza, e uma estrela Michelin na porta. Entreolhámo-nos, eu e a minha gentil "pendura", havia que dosear custos. Num breve inquérito, detectámos o estabelecimento do Sr. Hélder Granhão, mais abaixo, comida para o nosso bolso. E assim foi, numa esplanada, as pernas da frente das cadeiras no passeio, as de trás já na rua, a gozar a inclinação refastelados, mais um belo bacalhau à Brás. De vinho, uma caneca cheia de zurrapa branca da casa. Em tempo de guerra, não se limpam as espingardas...

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Fez até a sua aparição um velho portuguese pointer, um sobrevivente da crise Lehman Brothers, caçador de outros tempos, impávido ante a situação geral do País. Fosse na sua juventude, ia tudo corrido à dentada. E ali nos fizemos amigos e o abracei e fui correspondido. Com a sua bênção voltámos à estrada.

Corremos rectas como elas são - infinitas. Disso tomámos notas nas Alcáçovas.

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O calor arrasava. Determináramos ainda uma paragem em Aljustrel. As vilas alentejanas assumem, por vezes, a fisionomia de um vício.

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E de lá vim com imagens de moínhos de vento dos idos dos burricos enfarinhados, memórias da minha querida Mãe, museus, tumbas ao léu, máquinas ainda produtivas, sabe-se lá!... O alcatrão tomara conta de nós e Almodôvar era uma fixação.

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Entre andorinhas ainda a tirar o brevet e uma sede de concelho passada à espada, quero dizer, dizimada por vistas curtas, ensonadas, ficaram lugares do melhor manuelino. Pouco mais.

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Salvaguardando, é claro, os meus velhos amigos pintassilgos. Finalmente, a cama, o dormir, o nada.

O dia seguinte seria o último. E envolvia a travessia da serra do Caldeirão, um deserto ondulado, com pêlos de sobreiro e outros de rapar a direito, sem lavores de pedo-manicure. No caminho, uma surpresa em Vale de Maria Dias (estes nomes, estas paragens...).

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O antigo edifício da Junta Autónoma das Estradas e a sinalização das distâncias que faltavam percorrer. S. Brás de Alportel era já ali... Muito aliviado pelos seus jacarandás. E muito construído, muito à pressa, como se fosse já correndo para mergulhar nas ondas do mar... Estávamos no Algarve!

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O foguete acelerara ao máximo. Faro, por fim!!! E depois das tradicionais rotundas o marco que, verdadeiramente, assinalava a chegada. Era o mítico km 738.

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Tinha praça condigna, em seu redor. Tiradas as fotografias da praxe, fomos a umas sardinhas apaziguantes. Faltava outra tanta viagem - agora de sul para norte...

 

De Chaves a Faro (EN2) - VI

João-Afonso Machado, 01.07.20

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Já de Castelo de Vide, ao longe, no cimo da serra, se avista Marvão, a "Sintra" do Alentejo. Seria obrigatória uma visita demorada, depois de passada a muralha, de lupa atenta a miríades de pormenores e grandiosidades de primeira água. Mas o cansaço era enorme e reduzida foi a volta, sem mesmo sairmos do carro. Haverá outros dias para fazer, um a um, tantos becos, tantos largos, tanta história. Anoitecera já, quando chegámos ao vizinho lugar da pernoita, a Escusa. O frio incutia respeito.

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E, de manhã, o passeio de reconhecimento por mais uma pacata aldeia alentejana, este muito de gaiolas de canários. Terra de santo sossego e um lindíssimo fontenário, mas desprovida de cafés abertos. Sem, sequer, um copo de leite cá dentro, demandámos outras paragens.

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Percorremos o túnel arbóreo da Portagem, retrato vivo das estradas de antigamente. O próximo destino - sempre de fugida - seria Portalegre, capital de distrito e cidade monumental.

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O castelo... A Sé... Mais a promessa de retorno de dois viajantes que já iam demasiadamente embalados... - para o fim da viagem.

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Mas agora era ainda apenas o fim do desvio à EN2. Chegara a hora do almoço, e a fome sobrepunha-se à vontade de vasculhar as belezas de Portalegre.

Assim - novamente na estrada. 

 

Castelo de Vide

João-Afonso Machado, 30.06.20

Fomos então, Pré-História adentro, enfrentando destemidamente a rudez do Neolítico. Com grande pena nossa, apenas o granito aflorava, no mais, nem uma fera, um troglodita urrador, sequer uma anta, um cromeleque, um menirzinho, algum vestígio de gruta próxima e habitada. Nada, a não ser a estrada, esse inglório meio de viajar no futuro. Finalmente, espetada numa encosta ampla, a vila de Castelo de Vide. Já não longe da serra de S. Mamede.

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Fortificada, como não podia deixar de ser. Mas sem elevadores... Arruamentos típicos, estreitos, íngremes, com muitas portas e mais flores. É tradição na terra, um concurso anual premiando a rua mais florida.

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A de Santa Maria será das melhor cotadas. Mas Castelo de Vide, num registo mais pacífico do que o nosso, exporia uma sucessão interminável de jarras e canteiros. Talvez por isso, repleta de pintassilgos, a ave onde, comigo, o mundo pára.

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E, quando retoma a marcha, espreita a torre maior e encaminha-se para esse último baluarte, sempre entre cores semeadas pelos becos.

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Vencida a porta do castelo, demos então com a Rua Direita (que só de nome o é) e nela uma pequena e medieval casa, armoriada com o brasão da família Matos, velho e relho, decerto quinhentista. Parece ter sido ali que El-Rei D. Dinis negociou, com os embaixadores aragoneses, o seu casamento com a princesa D. Isabel. Mas até chegarmos aos "Matos" outras peripécias terão ocorrido. Eis ali, pois, um bom tema para investigação.

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E do cimo da muralha, o branco tradicional alentejano...

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Enquanto cá em baixo, com o dia escurecendo já, um repuxo, a eterna melodia das águas em movimento.

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Mas ainda não era tudo: ainda haveria lugar, esse fim de tarde, para o Marvão...

 

 

De Chaves a Faro (EN2) - V

João-Afonso Machado, 28.06.20

O desvio estava planeado. Já da outra banda do Tejo, encarreirámos para nascente. Ao lado ficaram Gavião, Niza..., muito andamento em estradas livres, marginadas de terra sáfara, amarelada de uma vegetação queimada, aqui e ali tosada por quaisquer ovelhitas. O grosso do plantio eram extensas e avantajadas formações graníticas, postas entre sobreiros e tentativas de fertilidade cereal. Mas o que conseguir em terrenos assim?

Os nossos antepassados de há dez mil anos, pensando em nós, entretiveram-se com antas e menires, para recreio e devaneio de hoje. Fartaram-se de içar pedras para cima de outras pedras, divertidos com as conjecturas dos seus descendentes de um futuro muito longínquo - e mal agradecido, pelo desprezo votado àquelas bandas solitárias. Povoações, quase nenhumas. Enfim, Tolosa.

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Dormia-se, certamente, era a hora da sesta. Tolosa pertencia às andorinhas e ao seu bairro de luxo, nas paredes do depósito de recolha das águas da chuva. Cheirava a sede, por ali. Abalámos, então, indo passar a Gáfete.

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E outra vez ninguém a receber-nos, senão a cegonha e o seu rebento, no ninho, para não desdizer no topo de uma árvore seca, quase um abraço de fantasma. Breve seguimos para Alpalhão, onde a voz humana finalmente se fez ouvir.

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Foi junto à igreja paroquial, votiva de Nossa Senhora da Graça. A simpática freirinha, uma teresiana de Braga transportada para tão longe, nada percebera, o Senhor Abade também não. Mas o malandro do escultor contrabalançara a cruz de Cristo com o velho símbolo da virilidade, meio menir, meio gesto feio, indo depois com a história que era um dedo apontado para o Céu, para Deus Pai.

Pois sim... Agradados de tanta ingenuidade, decidimos ir conhecer o mundo perdido de Castelo de Vide.

 

Outros mundos

João-Afonso Machado, 27.06.20

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Um fim de tarde ainda mais azul e refrescado de verdes na soleira da porta. Não era casa nem de gente muita, nem enorme. Como nas histórias que se ouvem na infância, oscilando entre bruxas cheias de truques e velhinhas bondosas. Era o caso; e, como nessas historietas, o turista andava perdido e a sua paciência também. 

Talvez nem desse por nada, não fora a velhinha vir cá fora com umas sobras de comida para o bichano. A porta chiou, viu-se uma luz, o pequeno e encurvado vulto. Decerto dali poderia chegar alguma informação, ao menos que terra era aquela, já ameaçada pela noite.

Os olhinhos espertos da senhora logo toparam o cansaço, a mochila a fugir-lhe nos costas, a fome absolutamente transparente. E o turista perdido aceitou o convite para entrar, e se sentar junto ao borralho, mesmo ao lado da ausência total de electrodomésticos. Ela, muito ligeira, a mimá-lo com um caneco enorme de água fresquinha, já a bufar umas brasas debaixo da grade metálica. Tudo muito limpinho, cinzas sacras, dir-se-ia, a velhinha de cabelo alvíssimo, repuxado para trás, de um falar quase cantado.

Em dois tempos o caldo estava pronto na malga fumegante. A hortaliça a boiar nele, levezinho, adubado das melhores peças do fumeiro, humilhou ali mesmo qualquer restaurante. Repetiu a dose, saciou-se, ainda foi presenteado com dois ladrilhos de marmelada para sobremesa.

Recuperara as forças. Agradeceu muito e perguntou por algum hotel nas imediações. A velhinha não possuia léxico para mais do que pensões. Indicou-lhe uma, três travessas além. Para lá se dirigiu, que remédio... e lá dormiu.

Sem alguma televisão por companhia, a casa de banho era comum mas cheirava a limpeza. Sobre a sua cama, o crucifixo era só dele, o calendário do ano passado também; tomou conhecimento dos efeitos da alfazema em lençois de linho. De manhã, fatias de pão de lavrador e leite da vaca, mais um preço módico, inacreditável. Ficou-se com a povoação só para si, um segredo seu, não a quis cheia de gente aviltando a sua pureza. Regressaria em breve à pensão e aos comeres da velhinha. 

 

"Pintassilgos"

João-Afonso Machado, 25.06.20

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Fui e vim. De Chaves a Faro, pelo interior do País. Quase diria, através de um outro país, tão mais calmo, tão mais saudável. Foram seis cansativos dias de estrada que muito valeram a pena.

Curiosíssimo o culto, sempre crescente, em torno do marco do km 0 do percurso, em Chaves. Já com direito a uma rotunda só para ele. O mesmo acontece em Faro, no meco do km 738, igualmente venerado num altarzinho, um espaço em calçada de calcário, com o número célebre a negro gigantesco no chão. E, ao lado, o restaurante, as sardinhas esplendidamente assadas, o repouso após a travessia.

Por toda a estrada percorrida bem se notavam as viaturas equipadas para esta “chegadela” ao fim do mundo; e, sobretudo, dezenas e dezenas de grupos de motards, quer para norte, quer para sul, firmando a natureza turística da EN2, cativando já as atenções dos comerciantes locais.

No Pedrogão Pequeno, por exemplo, muito lá no fundo da Beira, o hotel “era deles”. De uma quantidade incontável de motas de grande cilindrada, estacionadas no seu parque. Aquilo era bando internacional, romaria maior do que a da Senhora da Agonia.

Claro que este roteiro, este passeio, não é só estrada. A estrada será mesmo o de menor importância, recordando tanta terrinha onde parei, peguei na máquina fotográfica e me entretive umas horas conhecendo ou reconhecendo.

Assim aconteceram momentos, às vezes pormenorzinhos, que me encheram e me fizeram sentir tão distante do quotidiano, Referiria, para ilustrar, as bôlas de Lamego, as vistas do Douro, os filetes de polvo de Tondela… A maravilha que é a pequena, esquecida, vila de Góis; as belezas de Castelo de Vide e os pintassilgos dos seus jardins. E fico-me por aqui, dispensando comentários acerca da imensidão alentejana, a travessia do mundo perdido que é a serra do Caldeirão, a marcar a fronteira com o Reino dos Algarves.

Prosseguirei retornando a Castelo de Vide e aos seus pintassilgos. Um dos mais alegres e coloridos pássaros canoros, uma maravilha por lá tão frequente quanto por estas bandas o nosso pardal. Foi essa a minha imediata comparação, uma lástima!, afortunadas as terreolas apintassilgadas.

E havia-os cá. Recordo sempre a minha Avó referindo os pintassilgos, a sua mescla de negro, amarelos e vermelhos, a arte de os apanhar vivos com visco – uma espécie de cola espalhada nos ramitos das árvores onde poisavam, e já não levantavam voo, agarrados àquele grude. Depois, o seu destino era a gaiola e o dever de trinar até envergonhar os canários.

Outros tempos. Engaiolá-los seria uma maldade. Gozá-los à solta, nos nossos espaços arborizados, um privilégio. Lembro também um falecido vizinho dos meus tempos no Porto, em plena cidade apanhando-os com redes quase invisíveis que embatucavam o seu voar. Depois, era dinheiro contado a sua venda ou a dos “traçados”, os filhos dos amores entre canários e pintassilgos.

Continuo na minha: para nada disso eu os queria cá. Queria-os somente para os ouvir, os fotografar, os apreciar, fosse na Praça 9 de Abril, fosse em Sinçães, acima de tudo houvesse-os na Devesa, com a todas as condições de sossego, alimentação e reprodução. Famalicão, a capital nortenha do pintassilgo! Além dos têxteis, a riqueza minhota única dos pintassilgos.

Hei de consultar os entendidos. Mas estou em crer, umas dezenas deles soltos na Devesa tornariam a nossa terra muito mais vistosa e cantante. Com passarinhos do tamanho de um badego, mas imensamente mais bonitos. Que nem uns loucos de volta das sementes de girassol – outra componente de cenário à maneira… – agora que a polícia apreende as fisgas e puxa as orelhas à catraiada sua detentora…

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas in Opinião Pública de 25.JUL.2020)

 

 

De Chaves a Faro (EN2) - IV

João-Afonso Machado, 23.06.20

Até ao Pedrogão Pequeno, percorremos assadamente o Portugal queimado, esse incontornável braseiro que este ano ainda não deu sinal. Mas o calor era muito e a imagem, ao longe, da barragem do Cabril veio refrescar-nos um pouco os espíritos.

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Pouco faltaria para o hotel onde chegámos entre uma nuvem de motards maior do que a praga dos gafanhotos. As vistas, todavia, eram excelentes: ao longe o Pedrogão Grande, ponto de encontro dos distritos de Coimbra, Leiria e Castelo Branco. Não surgiu modo de ir além de um "adeus" à distância...

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E só no dia seguinte, após o indispensável descanso, viemos cá abaixo, meter o nariz no Pedrogão Pequeno.

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Pequeno, mudo e muito deixado ao deus-dará. Rumámos então à Sertã.

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Outro mundo, outros castelos, outro movimento, uma valente ribeira a rechinar de peixe, mas a pesca não se compadece com velocidades como a que levávamos. Urgia prosseguir para sul, a próxima paragem seria Abrantes.

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O reino do conde (desses mais antigos) D. Lopo de Almeida. Não faltava onde enfiar a curiosidade, assim o relógio o consentisse. Do alto da muralha da fortaleza, a planície em redor do Tejo, com pouco de lezíria, muito mais de indústria, colossais fábricas que se avistam quilómetros e quilómetros para os lados de Espanha. Entre tantas imagens, ficou-nos a entradinha simpática de uma casota, pequena como decerto a dona, na Travessa do Tem-te-Bem. Foi essa que trouxemos. Estávamos saciados...

Atravessando o rio no Rossio ao Sul do Tejo punhamos o pé na provincia trastagana. Tal o passo a dar seguidamente.

 

Góis

João-Afonso Machado, 21.06.20

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Poderão pensar, à chegada a Góis esperava-nos generosa sessão de fogo de artifício, mas é ilusão. Nessa tão amável vila, fazia as honras da casa o rio Ceira, a sua praia fluvial e os seus repuxos. No restante..., nem vivalma.

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Não contando o destemido gato, nas escadinhas da entrada, a deixar lhe passasse à vontade a mão pelo pêlo, e a velhotinha, muito de relance, - Boa tarde! Mas a tirar fotografias a coisas tão estragadas?!...

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E mais ninguém, senão catadupas de «coisas estragadas», leia-se casario onde facilmente me instalaria e seria feliz, entre ruas estreitas e desprovidas de poluição humana. Porque, em boa verdade, nunca conseguímos topar onde estacionavam os 2.000 habitantes de Góis.

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Na praia não estavam: deserta, com a mais pacífica aparência que imaginar se possa, e o cheiro maravilhoso a truta. Sim, existe esse aroma que brota do fundo das águas de temperatura que não vá além dos 18º e se apresentem limpinhas. O Ceira, um afluente do Mondego, já secularmente era famoso pelo seu peixe. Mas, geralmente, sobrevindo os tempos modernos, chega a indústria, o industrial patêgo e os seus carros «topo de gama», as cores garridas no curso dos rios... Em suma, o chamado «fim da macacada».

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Ali não. Descemos à praia por um quase museu ribeirinho, passeamos na areia e nos godos, nem um freguês! À cautela não houve mergulho - dada a intensidade do cheiro a truta, a água estaria abaixo dos 18º (incolor, puríssima...) e não é prudente a condução automóvel sob hipotermia.

Ficaram as vistas, o mar alto antes do açude.

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Aliás, o genuíno Oceano Pacífico. Ou ainda não abrira a época balnear ou tanta quietude dispensava a vigilância. Góis foi mais do que uma visita; foi uma massagem,  um creme, o relaxe dos músculos cerebrais.

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E, com o sol a bater num edifício com uma vaga aparência de paços do concelho, a tardinha já para o fim, presenteou-nos Góis com uma novidade dos dias dia de hoje: o seu repuxo.

Era tempo de avançar mais Beira adentro...

 

 

De Chaves a Faro (EN2) - III

João-Afonso Machado, 20.06.20

E Lamego acordou muito bem disposta, logo a caminho dos Sagrados Ofícios.

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Houve quem lá não chegasse, perdido em conversas sobre a terra, sobre o vazio turístico, no conforto de um pequeno-almoço muito elaborado de burocracias anti-covídicas. Depois, urgia partir.

Já com os vinhedos a cairem no esquecimento, correndo à ilharga da serra de Montemuro, não tardou invadissemos Castro Daire. Vilazinha sossegada, de recantos curiosos e gente invisível.

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Mas lá estava o marco tranquilizador. Ao km 136 permaneciamos na EN2, descendo agora em direcção à região do Dão.

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Até Viseu foi um instante. Outro carrocel de rotundas, uma escapatória, enfim, e paragem adiante, em Tondela. Era a hora do almoço.

Por isso, decerto, a ausência também de tondelenses. Mas lá encontrámos um restaurante e a sua enorme proeza de uns filetes de polvo históricos, ancestrais. É caso para dizer, com tanto tempo sentado no carro, e estes pitéus de permeio, a engorda bate-me à porta. Sobrevem o susto, o cuidado com a saúde, mas tudo se esvai quando a travessa chega à mesa.

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Assim a voltinha digestiva se tornou um imperativo.Tondela também voltava à rua, em voz baixa, com algum comércio nada stressado. Achei especial interesse no museu desta "Terra de Besteiros", outrora casa, como se lê na respectiva pedra de armas, da família Vale.

Não demorou Santa Comba Dão. Outra localidade de vanguarda, lojas de arrojadíssimo desenho.

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E tudo foram sorrisos quando perguntei o rumo de Vimieiro, a terra do Sr. António. Sorrisos amistosos, esclareça-se, procedidos de prontas explicações. Era logo ali, e eu tive curiosidade em rever a sua campa no cemitério, um pedaço de pedra tosca onde algum pedreiro gravou à pressa - "AOS". E mais nada, sendo que o Sr. António, se quisesse, teria lugar em um qualquer panteão de nomeada - meno no Real, claro, - onde esperaria a Revolução o despejasse. Eis o que não deixo de admirar na sua pessoa, muito embora todas as voltas que ele trocou à nossa amada Bandeira Nacional. Nas imediações, uma abonada residência, ainda agora não destelhada e de provável afinidade com a memória do Sr. António.

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Pela Lousã seguimos a Góis. Uma vila belissima, um capítulo à parte.

 

Novidades que o fossem

João-Afonso Machado, 18.06.20

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 A sua rosada memória está muito entre os de cá. O Sr. Rito, um adiantado-mor da época, dividia a cidade, o seu mundo, entre improdutivos carros-de-bois e os motores de fértil cilindrada, buzinando familiarmente à porta da sua pensão.

Recebia os recém-chegados com os braços abertos há muitos anos de fidelidade e estadia marcada. A época estival era o  seu mealheiro, benza o Poderoso o charme das termas, e se lhe achegassem os tantos sotaques de outras terras. O Sr. Rito deles vivia e muito os estimava. Recebia-os ao modo dos seus hóspedes, em fato de linho claro e gravata colorida até ao umbigo. Os carros dos viandantes anunciavam-se carregados de famílias, e seus afins ou serviçais, para estadias de semanas.

Havia quartos para todas as posições sociais, um encanto os do último andar, todo avarandado e charutado em cálidos poentes. No meado de Julho, por norma, a reserva era de uma certa gente do Porto, abonada, a ocupá-lo por inteiro. Diária completa, almoços e jantares na Pensão Rito.

Havia de tudo, e na altura estival a pensão inchava. Repleta de gerações, as mais novas da quais já contrariadas, de mente fixa nas praias e nos fatos-de-banho... Mas sempre obediente ao alinhado cabelo do patriarca, sem gravata sentindo-se desnudado, homem de sombras nos seus passeios diários, em paletó, ao longo do rio. A regorgitar o seu ódio pelos areais da beira-mar.

Chapéuzinho de palha meio entornado, o cliente-pai não esquecia os sorrisos matreiros dos presentes, dessa vez que pisara a praia. Burguês até à medula, resolvera acabar os seus dias nas termas. Ao volante das mais opulentas refeições. Nortenhas, carregadas de gordura porcina até Deus-Pai se impresssionar e compadecer. Porque, previamente à apoplexia, rumavam as vítimas os caminhos das águas - sulfurosas, ferruginosas, fumegantes à nascente ou cristalinas e leves, todas capazes de perdoar o pecado da gula. E esse era o confessionário por onde passavam os prevaricadores da comezaina.

A Pensão Rito prosperou décadas. Era obra do Sr. Rito (Pai), um auto-proclamado íntimo de Afonso Costa, cujo retrato se mantinha na recepção. Não havia perguntas, - apenas um olhar vago sobre tanta papada, a estranha expressão de olhos pequeninos e amarelada pelo tempo. Diabetes?  Fel? - o fígado e a vesícula num canho? Sobrepunha-se o silêncio, a discrição, decerto seria o Pai Rito... Abençoados tempos de ignorância e alheamento político, capazes de transformar um carrasco em supliciado.

O Rito Filho, não venceu os Anos 50. Morreu, repentinamente, sem sequer escangalhar a risca da sua grisalha cabeleira. Diz quem o acompanhou à última morada, estava sereno na urna, muito compostinho, todo ajeitado, sem sombra facial de padecimento. Solteiro, como herdeiros ficaram os sobrinhos, de sempre radicados em Lisboa, nada querendo saber da pensão que logo congeminaram vender. Dissidências diversas entre eles estagnaram o propósito, e acarretaram a ruína actual.

Choramingam o tempo e a vizinhança: - Quem a viu e quem a vê!... -  E já ninguém sabe contabilizar os comproprietários daquele ilustre poiso, há meio século atrás de tamanha florescência.

Mas regozija-se últimamente a terra. Um sobrinho-bisneto do Sr. Rito, homem bem sucedido na vida, parece ficará com  o edifício. E investirá nele. Estarão de volta as águas exóticas, o retorno ao descanso termal. Contando, além dos ferruginosos, sulfurosos, aquentados líquidos, - haja massagens também. Com pedras roliças e algas, bem entendido.

 

De Chaves a Faro (EN2) - II

João-Afonso Machado, 16.06.20

A EN2 desata-se numa recta prolongada, a zona industrial de Chaves, com muitas moradias à mistura. Acho eu a fazerem despedidas, mais do que a dar as boas-vindas. Impressão minha, passageira... - Então estes malucos seguem para o fim do mundo? - Porque o Algarve será as vésperas do Bojador, lá onde Deus não é. Mas, por ora, o ambiente está ainda vivencial, respirável, e o Vidago, as Pedras Salgadas, tudo foi ficando para trás, sem direito a visita. O mesmo com Vila Pouca de Aguiar e a traidora Vila Real,  tangenciadas ambas, até Santa Marta de Penaguião, um breve pousio.

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Não se descobrem ali histórias empolgantes. Santa Marta de Penaguião somente vai vivendo, muito mamando da adega cooperativa. Mas não esquece o seu lugar no roteiro, aliás anunciado a amarelo em marco desmedido. Andamos no preâmbulo do Alto Douro vinhateiro. 

Depois o percurso é confuso e encaracolado. Eu prometera á minha "pendura" mostrar-lhe do mais bonito da Região. Assim passámos a Régua, olhando-a pela janela do carro e, por caminhos não mapeados, a levei a Covelinhas, terra de gloriosas tropelias nos meus 40 e poucos anitos. Quando a gente ainda trepa varandas...

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Ali pescava, noite fora, carpas das encorpadas, iscando com massa de cotovelo cozida. E quase acreditava em serpentes escondidas nos silvados que vinham a banhos no escuro. Somente topei uma vez uma lontra a banhar-se sob os meus pés de estátua...  Desta vez, azaradamente, o comboio do dia passou já connosco dentro do carro a manobrar para o regresso. Que opípara fotografia!, não fora assim...

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Mas a minha jovem "pendura" gostou das vistas, fartou-se de fotografar, até eu me ver na necessidade de invocar Cronos para subir ao santuário das vistas durienses - S. Leonardo da Galafura.

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O grande miradouro do rio, a essa hora já com as mais altas elevações afogando em sombra as inferiores. Nem sei por onde ela andou... De câmara em riste, calculo. Cá por mim, depois do retrato da praxe, dediquei-me aos muitos tentilhões do arvoredo, descendo amiúde ao solo.

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S. Leonardo me valeu - com alguma parcimónia, diga-se de passagem. E tarde se fazia. Pela estrada de Vila Real atravessámos a barragem de Bagauste e seguimos que nem uma seta para Lamego. A mais esplendorosa cidade duriense! - Vão lá vê-la, se não acreditam.

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Eram horas de comer, a fome matava. Entre três copos de tinto desses bandas, a roçar o licoroso, já não recordo em quantas fatias de bôla me perdi: de bacalhau, de frango, de carne ou de presunto... Um banquete! Finalmente a volta pela urbe - a imprescindível volta digestiva -  e o ingresso na amabilíssima Residencial nas cercanias da Sé. O almejado descanso! Porque amanhã a Reconquista só parará na Beira Baixa.

 

De Chaves a Faro (EN2) - I

João-Afonso Machado, 14.06.20

Chaves, em suma, facilmente desmonta a história bacoca dos seus "defensores" com direito a avenida em Lisboa. É uma cidade lindíssima, cada visita, - cada novo desafio fotográfico.

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E, posta muito no alto, é o berço - ou o esquife... - da travessia do (novo) mundo português. Cidade grande e enganadora nos seus caminhos já longe do Tâmega, águas santas. Haverá que atravessar a ponte, experimentar as infernais órbitas das rotundas até, finalmente, alcançar o marco miliário-salazarista: o quilómetro zero de uma nação estendida mapa abaixo.

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Mais precisamente, o ponto de partida para a grande corrida de Portugal de lés-a-lés. Ao lado um simpático café, com vitrines de amplas colecções de miniaturas automóveis, onde comprei um emblema alusivo para a minha mochila (o desenho do dito marco desafiante) e em que se resguardam alguns velhos de nariz apepinado, bebendo o seu copo. Serão os fiscais do circuito, talvez. Os grupos de motards não cessam de passar... À conta da grande aventura, as caravanas ali estacionam, jipes com bagagem até ao tejadilho, rogando por um terceiro a tirar o retrato do conjunto. (Como na Gorongosa.)

Gozei o momento. De cabeça palmilhei centenas de quilómetros. Nas imediações desse ponto memorável, o desalento das ruínas. Mas porquê?

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Casas belle époque a cairem aos bocados. Décadas de varandins e janelas escancaradas e esquecidas, uma sombra sinistra sobre o celebérrimo marco decorado com capacetes boches cobrindo caveiras de dentes lavados e muitos caracteres góticos. Sobrava a velha placa em azulejo, intacta, delimitando as fronteiras da cidade.

Estranho lugar, logo à saída do simpático e convidativo café. Pensei comigo, será decerto o fim do fim, uma chicotada no lombo desta estrada que revive e é um símbolo. Estará para breve... - o renovado acolhimento dos que parte e chegam. Chaves não é um adeus aliviado, um - Olá! -resmungado...

Fizemos-nos à estrada, enfim. Até Lamego, cada curva, - quase cada mistério.

 

Ao fim da manhã, muito a norte

João-Afonso Machado, 13.06.20

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Junho abre as suas portas e enche de sol o comércio. Longe dos grandes infernos urbanos, Junho anima as gentes, solta as linguas, é claridade, esplanadas ressuscitadas, mas nunca o descalabro. O caos mora duas provincias depois. Nas manhãs de Junho ainda se negoceiam bois e uns porquitos; vai-se à cidade por qualquer alfaia agrícola. E também ao talho, à farmácia ou à mercearia. A fugir um pouco para a sombra, onde as palavras trocadas entre dois velhos conhecidos não têm de pôr as mãos em pala sobre os olhares.

Sai um cafezinho, saiem umas águas, o balcão ou a mesa cá fora suscitam irresistíveis vontades de almoços abundantes. Carregados e variados. Crescendo muito por cima dos cabos de enxada comprados nas ferragens e das pencas na hortaliceira, tudo à mão de semear o rio, a ponte, um roteiro jamais rotina. Entre os mais novos, estranhos e importados penteados da antiga América do povo iroquês - aí mesmo, nas guardas da ponte, de cu para jusante.

Só entardecendo sobrevirá o silêncio; e no dia seguinte igual labor na cidade distante, onde os iroqueses passam as horas discutindo belicismos sobre o rio e a idade mais gulosa, e mais prazenteira, sonha com enchidos e cozido à portuguesa e vai à loja por umas ceroulas quaisquer.

 

"EN2"

João-Afonso Machado, 10.06.20

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Ouvi nas caminhetas – Mas, afinal, o que é isso da Estrada Nacional 2? - E embatuquei. Fui estudar.

Conheci lições mais difíceis. Aprendi, e fiz um plano para a primeira oportunidade, que chegou agora. Estou de saída.

Ao tempo em que lerem estas linhas – a imprecisão resulta dos feriados próximos – se não houver novidade, andarei entre a Beira Baixa e o Alto Alentejo. Será quase uma semana de passeio, as minhas férias no exterior do Interior, e o decalque de rotas já conhecidas, há muito não transpostas, de mistura com umas tantas novidades. Falo, mais precisamente, da dita travessia da EN2, de Chaves a Faro.

Segundo me informei, a mais longa estrada europeia, e a terceira mundial. Para todos os efeitos, a versão portuguesa da famosa Route 66, que vai da ponta Leste à Oeste dos EUA. Atravessando quatro fusos horários, creio. Aqui, a gente é menos exuberante e, de resto, viaja de norte para sul – somos um país de simplesmente humanos… A obra tem a assinatura do Eng. Duarte Pacheco, ministro da II República.

A EN2 percorre, com bastante precisão, a espinha central do mapa nacional. Na problemática sanitária dos nossos dias, segue o percurso mais inocente, mais alheado da epidemia. É hoje uma rota corriqueira de peregrinação, – não religiosa – mesmo a pé, e já valeu, a quem a fez, alguns prémios literários. Deixo aqui a menção, bastante de cor, de alguns pontos do percurso. Em Chaves, descobre-se o célebre marco rodoviário que é o sinal de partida – está lá escrito: «Km 0»; e a referência a Faro, outros quase 800 para baixo. Assim, ouvindo-se dado o tiro do arranque, com passagem pelo Vidago, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Régua (prometi à minha “pendura” um desvio por S. Leonardo da Galafura, um dos mais exuberantes miradouros portugueses, sobre o Douro), Castro Daire, S. Pedro do Sul, Viseu, Penacova, Coimbra, Góis… A Beira vai em metade… Depois, Vila do Rei, Oleiros, a Sertã, Abrantes, a travessia do Tejo, a Ponte do Sor, o Alentejo imenso, S. Brás de Alportel, já nas serranias algarvias, e finalmente Faro.

Evidentemente, espero trazer ampla documentação e vasta fotografia de um Portugal que não é imenso (vem-me à ideia o meu filho mais velho, um aventureiro, e a sua travessia da Sibéria à boleia…) mas diversíssimo de região para região. Porque elas são muitas, envolvendo a paisagem, o clima, as gentes, os costumes. Resulta disto tudo a derivação para Castelo de Vide, Marvão e Portalegre, lugares de já tão distante memória.

Mais a mais, todos sabemos o que o Tempo é capaz, o que nos espera pela frente. Prenunciadamente, diferenças que desorientam, espasmos no GPS. Por tudo, o resultado de uma “prova” inconstante e difícil. Mas, creio, valerá a pena. Portugal é as vinhas do Douro, as serranias da Beira, o planalto, a solidão da Beira Baixa e do Alentejo. É um coração, um corpo de todos nós. É gente pobre, idosa, perdida entre as montanhas. Se dissesse ia conhecer o desconhecido, mentiria. Vou antes revivê-lo, voltar a sentir o distante de umas dezenas de quilómetros da azáfama litoral. E se trouxer provas dessa crua dualidade, duas em duas – o meu testemunho de povos tão perto, mas afinal tão distantes e diferentes; e o meu incentivo a que os famalicenses, em alternativa ao mar, vão conhecer os rios. Onde eles nascem e crescem e os nossos precisam de nós.

 

(Da rúbrica Ouvi nas caminhetas in Opinião Pública de 10.JUN.2020)

 

 

Por aí...

João-Afonso Machado, 08.06.20

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Deve ter sido Soult, entrando em Portugal por Trás-os Montes. Ainda por aí se escreve e diz "garage", à moda dos franceses. Será a cause..., ficou a palavra mas o exército invasor não passou o Norte. Não chegou a Faro, onde espero, lá do sul, ver o mapa todo na vertical, como antigamente na escola primária, e depois subi-lo sem palmatoadas nem choros nem arquejos.

Aposto que a carta se amolda e me deixa dormir em cima, pobre de quem não tem cama...

 

No lugar onde não me apanham: na Moral

João-Afonso Machado, 06.06.20

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Sendo a História a grande mestra da vida - como já Tucídedes anunciava - havemos de ler os Evangelhos sempre  na cortesia e no respeito devido a uma simpática, imortal, obra lírica. Com todo o aprumo. Mas sem jamais esquecer o pragmatismo, mesmo a severidade, do aludido velho mestre ateniense.

Por isso, a relatividade do perdão. Está bem - levas numa face, ofereces a outra. E por aí ficamos. O perdão é uma segunda oportunidade que se dá; se for uma terceira, já é uma fraqueza; uma quarta, uma loucura, uma obscenidade até - de todo o jeito um péssimo exemplo, mesmo um mal praticado contra a sociedade.

Pensar que as coisas são assim nem é necessário. Basta atentar no dia-a-dia, uma caterva de perfídias que receiam os candidatos ao Nobel do Bem, o galardão que por isso nem existe - e o da Paz tanto se atribui a quem tanto fez a guerra para pacificar.

Onde houver paz há disciplina. Consideração. Igualdade no trato.

Em nome do Coração, entreguem-se as chaves da casa à Razão.

Se tudo isto é uma heresia? - Talvez me engane, mas heresia serão os dez pecados mortais arrolados nas Escrituras, quotidianamente zurzindo, pelos piores, as costas dos menos maus; e mais e mais. Eles não merecem, e a sua defesa só pode consistir em abdicar de parte da sua complacência. Sobre as normas morais, vive o ser humano e mesmo o rigor de Cristo dizendo que os seus braços não são para todos. Só para os predispostos a aceitar, mais, falha, menos falha, as regras fundamentais.

Afinal,  o princípio básico: devemos ao próximo o que ele nos deve a nós.